THE KING

28 de agosto de 2017

 Jack Kirby

Criador de boa parte da Marvel, junto com Stan Lee, e de muito da DC, desenhista é um desconhecido fora das HQs em seu centenário de nascimento

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Todo mundo, até quem não lê quadrinhos, sabe quem é Stan Lee. O nonagenário criador dos maiores super-heróis da Marvel aparece em pontas em todo e qualquer filme do estúdio (e de outras produtoras), sem contar que a presença constante na TV e imprensa. Mas poucos, fora dos leitores de quadrinhos, sabem quem foi Jack “The King” Kirby, o desenhista e roteirista que, junto com Lee, criou nos anos 60 o sucesso da Marvel. Antes até da Segunda Guerra, em que foi lutar, Kirby já era um autor consagrado e havia desenhado o Capitão América junto com Joe Simon. Jack Kirby completaria 100 anos (morreu em 1994) dia 28 de agosto de 2017 e uma série de homenagens e republicações, além de livros e documentários, lembrarão sua contribuição para os quadrinhos, além da influência no cinema, como confirmado por John Cameron (Aliens e Avatar).
Boa parte disso se deve ao famoso ‘método Marvel’: Stan Lee escrevia apenas uma sinopse do conceito e história de cada um dos personagens que a dupla criou no início dos tempos heróicos da editora – quando a editora ainda não era a Marvel, nos anos 60. O suor cabia a Jack Kirby, que preenchia mais de 30 páginas com o argumento das histórias (foi ele quem criou o Surfista Prateado, por exemplo, numa HQ do Quarteto Fantástico) sem contar os desenhos. Lee então acrescentava os textos e diálogos finais. Kirby passou a se ressentir que todos os créditos na criação de Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Vingadores e muitos outros, não fossem divididos com ele. O mesmo aconteceu com o desenhista Steve Ditko, cocriador com Stan Lee do Homem-Aranha e Doutor Estranho. Ambos tiveram as relações com Stan abaladas.

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Jack Kirby estabeleceu boa parte dos alicerces da Marvel, com Stan Lee

Jack Kirby se bandeou então para a Distinta Concorrência (a DC Comics) onde mostrou seu talento, não apenas como desenhista, mas criador, concebendo inúmeros heróis, vilões e mundos que até hoje a empresa da Warner utiliza, principalmente nos filmes para cinema e TV. Kirby acrescentou ao legado do Super-Homem toda uma série de conceitos e personagens como o vilão Darkseid, Apokolips, o Projeto Cadmus, Guardião e Mr. Miracle, além dos Novos Deuses e O Quarto Mundo, entre muitas outras criações.

 

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Darkseid enfrenta os Novos Deuses: a DC também lhe deve alguns mundos e ícones

Conta a lenda que ainda antes dos EUA entrar na Segunda Guerra, Jack Kirby criou a famosa capa de Capitão América 1, em que o supersoldado esmurrava ninguém menos que Adolf Hitler.

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Capitão América 1, engajado antes dos USA entrarem na II Guerra Mundial

Alguns membros do Partido Nazista Americano (o maior do mundo fora da Alemanha) não gostaram nada e teriam ido à sede da editora, em Nova York, tirar satisfação com o judeu responsável pela ofensa (o nome verdadeiro dele era Jacob Kurtzberg, filho de imigrantes austríacos). Criado num gueto pobre barra pesada de Nova York dominado por gangues, Kirby não teve dúvidas: foi ao encontro dos nazistas e partiu para o ‘pau’ em cima deles. Posteriormente, foi lutar de verdade na Segunda Guerra.

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O estilo épico e detalhado do desenho de Jack Kirby influenciou todas as gerações seguintes de desenhistas, inclusive a mim, que não me cansava de tentar imitar suas cenas espaciais impactantes, com sua iluminação dramática e estilizada, maior que a vida. Em plenos 60, sem recursos de ilustração digital, Kirby criava verdadeiros ‘efeitos especiais’ com o uso de traços e retículas, sendo um mestre na concepção de fabulosas visões tecnológicas e cenários alienígenas nunca vistos em páginas panorâmicas.

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Após anos de litígio na justiça americana, em processo movido pelos filhos, o ‘Rei’ teve o reconhecimento de seu nome como cocriador, constando nas publicações e filmes.
Uma série de homenagens e republicações tem sido feitas em todo o mundo para prestar a justa homenagem a Jack ‘The King’ Kirby.

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Os guetos novaiorquinos em que o garoto Jack Kirby cresceu: o traço capaz de transformar uma cena urbana típica num épico grandioso

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DINOSSAUROS

11 de agosto de 2017

O Livro dos “Lagartos-terríveis”

Antologia da Draco reúne alguns dos melhores contos brasileiros
com os monstros que todos adoram

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Dinossauros, antologia de histórias tendo como tema os gigantescos (ou não) “lagartos-terríveis” foi lançada pela Editora Draco durante a Bienal de São Paulo, em agosto de 2016. Foram quase 60 contos submetidos, resultando num diversificado e (volumoso) livro com 16 histórias de ficção científica e fantasia, com toques de terror e humor em alguns. À título de comparação, duas outras obras foram publicadas no Brasil – a homônima Dinossauros (Coleção Zenith, Aleph, 1993), com histórias de grandes autores internacionais como Arthur C. Clarke, Robert Henlein e Brian Aldiss, entre outros, e Dinossauria Tropicália, possivelmente a primeira nacional do tema, editada no ano seguinte pela GRD. O livro americano tinha uma pegada maior de ficção científica tradicional, com sua temática indo das clássicas viagens ou safáris no tempo até o embate de cowboys e dinossauros que, aliás, foi referência para meu próprio conto. A atual antologia brasileira, nesse sentido, além de ter pontos de contato com a antiga, foi bem mais diversificada em gêneros e temas, variando das viagens no tempo à engenharia genética no estilo Jurassic Park e até a “dinossauros” de outros tipos e origens.
Trata-se de uma bela edição, como de hábito tem sido as publicações da Draco. Desde a capa desenhada por Diego Sazzo, com o close de um T-Rex devidamente emplumado mastigando o logo ‘Dinossauros’, assim como a excelente diagramação do editor Erick Sama, mesclando elementos gráficos modernos e retrôs.
Seguem abaixo, pequenas resenhas dos contos, alguns acompanhados de charges engraçadinhas (espero) dos mesmos. Só não deu pra fazer uma para cada conto por que faltou inspiração para tanto. Desde a resenha da antologia Dieselpunk – (aqui) que não fazia isso, e espero retomar mais vezes, com outros livros e matérias.

DINOSSAUROS – Os Contos
“Garota-Dinossauro e os Especistas”, de Gerson Lodi-Ribeiro (organizador)
A noveleta que abre a antologia (assim como a que a fecha) de autoria do organizador, Gerson Lodi-Ribeiro, tem como cenário um mundo futuro em que se descobriu a existência de uma avançada raça de dinossauros inteligentes, os selenossauros, vindos do período cretáceo e portadores de alta tecnologia. Os selenossauros acabam formando uma colônia na Terra, num arquipélago no Pacífico chamado Novo Éden, cerca do ano 2500. A ‘Garota-Dinossauro’ do título, humana adotada por um casal de selenossauros, acaba sendo escolhida para retroceder no tempo até o passado pré-histórico da Terra, entrando em contato com os ancestrais inteligentes dos selenossauros.

“Bandeirantes & Dinossauros” (Sid Castro)

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A Bandeira de São Jorge encontra ‘dragões’ durante a travessia de um estranho e terrível Mundo Perdido no sertão

Meu conto. Resolvido a fazer uma versão ‘nacionalista’ com bandeirantes no lugar dos cowboys, parti para uma grande pesquisa – dos dinossauros tupiniquins na época escolhida, da queda do malfadado meteoro destruidor, aos igualmente malfadados (hoje) bandeirantes. Para minha surpresa, eles eram bem diferentes do que aprendi na escola e ainda consta nos livros tradicionais. Caboclos na sua maioria, com muitos índios livres fazendo parte das expedições e relativamente poucos brancos, a maioria dos quais sequer falava português. Eram uma civilização selvagem à parte, perfeitos para desbravar um Mundo Perdido. A história da Bandeira de São Jorge, que se perde na Terra incógnita além do Rio das Mortes, graças aos eventos provocados por um ‘McGuffin’, um ‘Coyllur’ trazido dos Incas (objeto ‘caído das estrelas’), é vista pelos olhos do índio Bento, o Baquara, o “sabedor das coisas’, educado pelos Jesuítas nas Missões. Ele tenta entender e sobreviver à enxurrada de eventos que os atinge, aos ‘dragões’ com que lutam para sobreviver numa jornada através das eras.

“Atavismo – um Estudo” (Bruno Anselmi Matangrano)

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Antepassado de todas as aves, um esperto e calculista dino de laboratório se prepara para colocar os mamíferos em seu lugar

Gerada num laboratório americano, Bilina era um pequeno dinossauro criado por engenharia genética, involuído a partir de uma galinha – como se sabe, aves são os descendentes diretos dos grandes répteis. Mas além de se tornar cada vez inteligente, o pequeno dinossauro logo percebe que o mundo é pequeno demais para ele e os mamíferos dominantes. E passa a desenvolver seu plano de conquista do mundo! Para mim, uma das melhores histórias de ficção científica de humor negro em português, apesar de achar que o conto não perderia nada se fosse ambientado no Brasil ao invés do tradicional cenário anglo-saxônico.

 

“Civilizado” (João M. Beraldo)
Conto do gênero fantasia inserido no universo do livro Império de Diamante, ganhador do prêmio Argos 2016 do CLFC. Temos a narrativa da aprendiz de maga Agatha, acompanhando uma expedição que explora uma ilha habitada por dinossauros homeotérmicos, emplumados e racionais. A trama tem os eventos exóticos e as intrigas próprias do gênero, mas facilitaria ao leitor conhecer o mundo de fantasia original criado pelo autor, uma vez que o conto está inserido no universo do ‘Império de Diamante’.

 

“Garra e Dente” (Nuno Almeida)
Nascido desde o berço com um elo telepático com uma velociraptor fêmea, chamada Sárix, o jovem humano Mo’Kai tem pela frente a jornada que todo membro de seu povo enfrenta ao chegar à puberdade: levar a sua ‘irmã’ até o topo de uma montanha sagrada. O autor português narra uma aventura violenta e trágica entre monstros, répteis ou não, com final surpreendente.

 

“O Domo, o Roubo e o Guia” (Roberta Spindler)
Outro conto de fantasia, apesar de usar recursos da ficção científica como viagens no tempo à pré-história, onde existem colônias humanas protegidas por domos. Estas incluem dinossauros domesticados e que possuem, como no conto anterior, uma espécie de ‘vínculo telepático’ com magos que os controlam e também devem passar por uma prova de iniciação. A protagonista é a jovem maga Angela, que com seu dinossauro de montaria, Taurus, enfrenta as maquinações de outros magos.

 

“Os filhos que te dei, Oxalaia” (Cirilo S. Lemos)
A história se passa nas favelas lamacentas de um Rio steampunk, num conto que assim como o meu Notícias de Marte (Vaporpunk II), usa a visão que se tinha do século 19 a meados dos anos 50 dos planetas próximos da Terra, criando um ambiente retrô. Assim, enquanto Marte era idealizado como um mundo mais velho, desértico e cheio de canais (Bradbury, Burroughs), o segundo planeta, Vênus, seria mais jovem que a Terra, portanto, tendo grandes oceanos e habitado por monstros pré-históricos. Divididos em uma interminável guerra entre carnívoros e vegetarianos, dinos venusianos inteligentes vivem entre nós como imigrantes ou refugiados, mas restritos às favelas no alto dos morros. Crianças abandonadas também vivem com Oxalaia, uma fêmea do ‘Povo das Folhas’; mas há mais por trás da história, inclusive quando um pelotão militar sobe o morro para expurgar os imigrantes dinos de volta para seu planeta infernal. Acompanhando o pelotão, um repórter descobre-se diante de um drama social, racial e político.

 

“Homossauros” (João Raphael dos Santos)
Nessa FC pós-apocalíptica, acompanhamos o jornalista e ex-soldado Gabriel Salvador, tentando desvendar o segredo por trás da tragédia que se abateu sobre o mundo após a primeira Meta-guerra da humanidade. Uma poderosa corporação controla praticamente tudo nesse mundo violento e dividido. Os dinos da vez são humanos transformados por uma droga viciante, que dividiu o planeta entre pessoas comuns e os metas, com todo nivel de transformação de diversas formas de dinossauros. Uma história de conspiração, mas com um final demasiado apressado.

 

“Pampa” (Priscila Barone)

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O Sul mandando bem no mundo dos dinossauros redivivos

Aparentemente uma história simples da amizade entre uma menina e um pequeno dinossauro, Pampa é um dos contos que mais gostei. Acontece praticamente todo numa pequena cidade do interior gaúcho, quando um dino emplumado surge do nada e salva uma garota de 12 anos durante uma inundação. Pampa torna-se o centro da vida da jovem, e a amizade inusitada atrai tanto simpatia quanto ódio e incompreensão dos vizinhos. Narrada a partir de excertos de um diário, relatos na internet e um tal de ‘espelho do tempo’, à moda de romances clássicos do século 19 como Drácula ou O Médico e o Monstro, é preciso acompanhar a trajetória da menina e seu dinossauro Pampa até o final, para entender inclusive o método escolhido pela autora para contar sua história.

 

“Pérola Intocável” (Felix Alba)
É um conto de ficção científica, mas seu enredo é verdadeiramente de terror. A história narra a vida de Kinu, uma serviçal humana num mundo completamente dominado por uma raça de ‘dino-aliens’. Os humanos são escravizados física e até sexualmente pelos sáurios vindos do espaço, podem ser servidos como alimento e ter sua pele arrancada para ser usada como proteção dos raios do sol durante a troca de escamas. Um mundo de pesadelo, onde viver mais alguns dias é única esperança de uma frágil garota humana. Um conto que despertou alguma polêmica por suas cenas cruentas.

 

“Pobre Al” (Rodrigo van Kampen)
O Al do título vem de Alossauro, que a rigor, embora tenha a forma desse tipo de dinossauro, é uma inteligência artificial criada por pesquisadores brasileiros para um concurso internacional de invenções – que eles perdem, deixando-o como único da espécie no mundo. Solitário, Al busca nas redes sociais alguém que o compreenda e complemente. Um conto sobre inadequação, mas que por acaso tem um ‘dinossauro’ como protagonista. O autor, Rodrigo van Kampen, é editor da revista virtual Trasgo.

 

“O Relatório Veio do Espaço” (A.Z. Cordenonsi)
Escrito em forma narrativa, o conto discorre sobre um fenôneno que atinge todo o mundo – os ‘cronoviajantes’. Fendas se abrem aleatoriamente em diversos países, despejando dinossauros e outras criaturas de eras passadas, gerando conflitos e crises. Apesar de muito bem escrito, não será de leitura fácil para todo leitor, já que não conta uma história de modo tradicional – o que por si só lhe dá destaque entre diversos contos da antologia.

 

“Senhora Müller vai de Ônibus” (Simone Saueressig)
Mais um conto vindo do Sul, e como Pampa, escrito por uma autora e com uma pegada ‘humana’ envolvendo um único dinossauro e sua relação com, no caso, a senhora Müller do título. Singelo e fluente, mas também bem humorado, o conto narra as estripulias da tal velinha ao pegar o ônibus com seu dilofossauro de estimação. Não há muita explicação sobre a existência do bicho em nossos tempos, então o conto se enquadra mais como uma espécie de realismo fantástico do que ficção científica propriamente dita.

 

“Uma Família Feliz” (Flávio Medeiros Jr.)

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Minas também não fica atrás quando se trata de reviver os monstros pré-meteoro

Um dos contos que mais gostei, apesar de ter advinhado o final logo no começo (talvez por pensar como um escritor, já que seria o final que eu mesmo daria). Um estudante de biologia de Belo Horizonte se envolve na investigação de uma série de crimes que, aparentemente, foi cometida por um grande e feroz dinossauro. Contar mais seria dar spoiler.

 

“Ainda Além de Taprobana” (Antonio Luiz M. C. Costa)
Uma aventura estilo Mundo Perdido, quando três pesquisadores entram num território proibido habitado por seres pré-históricos na ilha de Taprobana (que, a rigor, seria um nome alternativo para o Ceilão). A história se passa no universo criado pelo autor em outras histórias: uma espécie de império luso-brasileiro em um tipo de ‘guerra fria’ com outra potência, uma América do Norte colonizada por holandeses. Como em outros contos, o autor mistura personagens da literatura clássica brasileira mesclados a temas indígenas e africanos, entre outros, mais as intrigas resultantes da ‘guerra fria’ colonial entre os impérios.

 

“Emissários de Nêmesis” (Gerson Lodi-Ribeiro)
Publicado originalmente em Dinossauria Tropicália, o conto se passa no mesmo universo dos selenossauros de Lodi-Ribeiro que abre a antologia, Garota-Dinossauro e os Especistas. Na verdade, é uma continuação, pois temos a aventura da Garota-Dinossauro entre os primitivos porém inteligentes ancestrais dos selenossauros, e as dramáticas ações tomadas por ela que poderão definir o futuro das duas espécies terrígenas. Ambos os contos me deram a sensação de que ainda há histórias a serem contadas nesse universo; talvez fosse o caso do autor escrever um livro de fix-ups passadas nessa realidade, senão se desdobrar num romance maior.

 

DINOSSAUROS

Organizador: Gerson Lodi-Ribeiro
ISBN: 978-85-8243-132-0
Gênero: ficção científica
Formato: 14 cm x 21 cm
Páginas: 380
Preço de capa: R$ 57,90 (papel)
R$ 24,90 (e-book)

http://editoradraco.com/2016/08/08/dinossauros/


MANGÁS

20 de março de 2017

PLANETES

Sci Fi hard de Makoto Yukimura em quatro volumes

Terminei de ler os quatro volumes do mangá PLANETES, de Makoto Yukimura (autor de Vinland Saga), publicados pela Panini em volumes de 240 páginas cada, com um ótimo trabalho gráfico. Fazia tempo que estava afastado dos mangás, meio enfastiado com a repetição dos temas de robôs gigantes, caracturismo e seus heróis de 14 anos. PLANETES, que originalmente foi lançado em 1999, no Japão, é um mangá seinen, que ao contrário dos mais juvenis shonen, muitas vezes contém críticas sociais e em um estilo de desenho mais realista para um público adulto. A obra de Yukimura é uma verdadeira ficção científica no melhor estilo hard. O desenho tem um detalhismo realista impressionante, principalmente nas páginas coloridas que abrem cada episódio – são 26, chamados ‘phases’. Mesmo assim, entre referências literárias e científicas, vez e meia algumas cenas fazem uso do típico recurso dos olhos e bocas esbugalhados, típicos dos mangás, servindo como alívio cômico. Isso, entremeando temas como terrorismo espacial, humanos diferenciados para viver no espaço, questões ambientais e políticas, incluindo racismo. Tudo se fecha num grande arco que vai do pequeno ao cósmico, do cotidiano ao épico. A história se passa em 2075, com um grupo de astronautas de várias origens trabalhando na órbita da Terra como ‘lixeiros espaciais’, na nave Toy Box, recolhendo toneladas de perigosos detritos, como num cenário do filme Gravidade. Mas o cenário se alterna entre  os dramas pessoais dos personagens principais e sua vida familiar e amigos na Terra, na colônia da Lua ou em longas viagens espaciais. O que não os impede de ambicionar vôos mais altos, como a primeira viagem a Júpiter, na imensa espaçonave Von Braun. Nada de robôs gigantes ou monstruosos invasores alienígenas  – os desenhos estabelecem a dimensão da solidão humana diante do Universo, sem viagens interestelares a exóticos planetas alienígenas, mas à luz da ciência atual. Uma projeção da conquista do espaço nas próximas décadas com realismo e rigor científico.


Nouvelle Bresilienne

25 de setembro de 2016

Revista francesa de ficção científica Galaxies 43 publica conto brasileiro ‘Pindorama’

 

A primeira publicação internacional a gente não esquece! Meu conto ‘Pindorama’ acaba de ser publicado na edição 43 da revista francesa Galaxies (edição digital e impressa). Ainda não recebi a impressa, mas a capa e o sumário estão aqui. ‘Pindorama’ foi meu segundo conto publicado em livro, selecionado para a antologia ‘Contos Imediatos’, (Terracota, 2009), organizada por Roberto De Sousa Causo e publicada por Claudio Brites. O conto foi traduzido para o francês por Jean-Pierre Laglie e editado por Pierre Gévart. Na edição francesa, o conto é acompanhado de um glossário tupi-francês. Allons-y!

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Capa final da edição 43 da Galaxies Science Fiction.

CONTOS IMEDIATOS – Pindorama foi publicado originalmente na antologia Contos Imediatos (Terracota, 2009), organizada por Roberto de Sousa Causo e editada por Claudio Brites, cm capa de Claudio Mor. Entre os contos selecionados estavam: Estranho no Paraíso (do veterano Jorge Luis Calife, autor da clássica trilogia nacional ‘Padrões de Contato); Déjà-vu (de Luiz Braz, também conhecido como Nelson de Oliveira, um dos mais renomados autores da literatura mainstream contemporânea); Netúnia e Libra Quatro (de Ataíde Tartari); Cibermetarrealidade (Tibor Moricz); Rejeição (Chico Pascoal); O Olho que tudo vê (Ademir Pascale); Camarões do Espaço (Miguel Carqueija); Acesso Negado (Tatiana Alves); Singularis Veritas (Mustafá Ali Kanso); Noite (João Batista Melo); e Pensamento (de André Carneiro, o primeiro autor brasileiro de fc publicado no exterior). O volume era complementado pelo ensaio ‘Um Gênero, Diferentes Olhares’, de Ramiro Giroldo, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, pesquisador da ficção científica brasileira. O livro foi lançado na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista, dia 28 de novembro de 2008, com a presença de vários autores.

contos-imediatosPINDORAMA

Livremente inspirado na música ‘Um Índio’ de Caetano Veloso, conta a história do guerreiro tupi Tibiriçá, conduzindo sua tribo, Guaçatara, o ‘povo-andarilho’, até a Montanha Sagrada, para o encontro com Sumé, um ‘índio vindo das estrelas’. Mas o destino de Tibiriçá e seu povo tomou rumo inesperado.

Segundo Causo, meu conto foi o último a chegar para a seletiva, que já tinha recebido dezenas de outros. Até então, eu tinha publicado (fora quadrinhos) meu primeiro conto somente em agosto do mesmo ano, em outra seletiva da Terracota, ‘Território V – Vampiros em Guerra’.

De lá para cá, foram outras 15 antologias, entre contos e noveletas. A carreira de Pindorama não terminou ainda. Para 2017, deverá ter outra republicação, nacional, ainda a ser confirmada.

 


STAR TREK

8 de setembro de 2016

50 anos da série que influenciou o mundo

Jornada nas Estrelas inspirou uma geração que promoveu

inovações tecnológicas de impacto na sociedade

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Neste 8 de setembro de 2016, Star Trek – A Série Clássica, estreava nos Estados Unidos com o episódio ‘The man trap’. No Brasil, o seriado iniciaria sua exibição em 1968, na extinta Excelsior, de São Paulo, como Jornada nas Estrelas. Pode parecer exagero que uma série da TV americana dos anos 60 – Star Trek – com apenas três temporadas a partir de setembro de 1966 tenha ‘mudado’ o mundo, mas uma análise de como suas inovações tecnológicas impactaram na sociedade futura (contemporânea) mostra exatamente isso. Adorada por uma geração de jovens cientistas e formadores de opinião, a série os motivou a criar invenções que buscavam tornar real o que era exibido na série, assim como influenciou o meio cultural. Um dos exemplos é o telefone celular. O capitão Kirk (William Shatner) e os tripulantes da espaçonave Enterprease (nome homenageado pela NASA num dos seus ônibus espaciais) usavam comunicadores que se abriam num toque e um tipo de tablet (lá chamado ‘tricorder’), usado pelo oficial de ciências Vulcano, Spock (Leonard Nimoy), escaneava tudo a seu redor recolhendo informações do ambiente. Martin Cooper, inventor do celular que trabalhou com a Motorola, admitiu que o comunicador de Star Trek serviu de inspiração para o seu trabalho. Segundo o Banco Mundial, 75% da população mundial usa celulares. O médico da nave também usava scanners – tais como são comuns hoje no uso da ressonância magnética. O dr. McCoy (DeForest Kelley), às vezes, inoculava medicamentos com uma injeção sem agulha – a pistola de vacinação pressurizada surgiu mais tarde. Amit Singhal, engenheiro responsável pela busca do Google há 15 anos, sempre diz que o seu sonho é criar o computador da Enterprease, que entende qualquer pergunta e tem a resposta mais imediata e útil possível. A equipe da Enterprise também tinha um dispositivo que traduzia automaticamente para o inglês tudo o que falavam. E a tenente Uhura usava um fone de ouvido sem fio. O choque da arma ‘feiser’ era muito usado pelos tripulantes para tontear adversários. O ‘teaser’ das forças policiais na atualidade tem um princípio semelhante. Eram comuns nas várias versões da série, cegos usando visores para enxergar; próteses oculares ligados a óculos especiais estão sendo testadas hoje em dia. E processadores de comida serviam para criar drinks sofisticados e refeições para a tripulação, como as atuais impressoras 3D. Algumas tecnologias são tão avançadas, que ainda estão por vir: é o caso do teletransporte, usado na série para baratear custos de filmagem. Essa tecnologia é objeto de pesquisa de cientistas, mas conseguem ‘teletransportar’ apenas partículas; ainda longe de teletransportar pessoas e objetos como em Star Trek. Mas sempre citam o seriado em suas entrevistas. Comemorando os 50 anos, Star Trek ganhará breve nova série pelo Netflix e o terceiro filme para cinema do reboot da franquia – Star Trek Sem Fronteiras já está em cartaz nos cinemas.


‘VIDA LONGA E PRÓSPERA’

27 de fevereiro de 2016

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Um ano da morte de Leonard Nimoy, o Sr. Spock, de Star Trek! Esta ilustração foi feita na ocasião para uma edição especial do Somnium, publicação digital do CLFC (Clube dos Leitores de Ficção Científica), juntamente com outra série de desenhos e artigos. Mas por uma série de fatos, a edição nunca foi terminada. Fica o que seria a capa da edição, portanto, como homenagem a Nimoy. Vida Longa e Próspera.

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Crônica marciana

4 de outubro de 2015

AS ÁGUAS DE MARTE

Nasa anuncia descoberta de água corrente no Planeta Vermelho na semana de lançamento do filme Perdido em Marte. Coincidência?

Matt Damon portrays an astronaut who faces seemingly insurmountable odds as he tries to find a way to subsist on a hostile planet.

No começo desta semana (dia 28 de setembro), a Nasa (Agência Espacial Americana) marcou uma coletiva sobre o planeta Marte que provocou todo tipo de especulação: da descoberta de pirâmides ou alienígenas a vida microbiana no Planeta Vermelho, passando por outras menos fantásticas. A resposta da agência espacial foi mais prosaica, como se esperava, embora não menos sensacional: no planeta, menor que a Terra e mais distante do Sol, tinha sido descoberta, de maneira comprovada, água em estado corrente em sua superfície, em regiões altas, durante períodos do ano. Embora uma água tipo salmoura, altamente salinizada, a comprovação do fato abriu precedentes científicos fundamentais na possibilidade de descoberta de vida (microbiana), além de aumentar o suporte para uma futura viagem ao quarto planeta.

Mars Before

Na mesma semana, mais exatamente nesta quinta-feira (1º de outubro), aconteceu o lançamento nacional de Perdido em Marte (The Martian) filme de Ridley Scott (Gladiador, Blade Runner, Alien) baseado no livro best seller do engenheiro de softwares e agora, escritor de ficção científica Andy Weir. Ele lançou a história inicialmente em seu blog e em ebook na Amazon, e com o sucesso da narrativa fictícia sobre um astronauta de um futuro próximo que, depois de um acidente, é abandonado sozinho em Marte, lutando pela sobrevivência num mundo hostil com sua inteligência, ganhou contrato por uma grande editora. No Brasil, o livro é publicado pela Arqueiro.

Seja como for, a coincidência do lançamento (nos EUA o filme foi lançado na sexta, dia 2) levou muita gente a acreditar num marketing premeditado e benéfico para ambos – Hollywood e Nasa. É bastante provável, já que os cientistas da Nasa gostaram muito do livro e o filme poderia despertar uma atitude positiva do contribuinte americano (que é quem paga, no final das contas, o programa espacial) e validar uma verdadeira viagem à Marte no prazo proposto pelo filme, por volta 2030. Se os chineses, hindus, russos ou europeus não forem primeiro. Enquanto isso, o programa espacial brasileiro continua empacado e até o contrato com a Ucrânia foi cancelado, crise abaixo.

O filme

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Perdido em Marte, o filme, narra as desventuras de Mark Watney (Matt Damon, de Interestelar), que é deixado para trás no Planeta Vermelho depois de dado como morto, quando sua equipe precisa ir embora às pressas. Sem comunicação, somente daí a quatro anos uma nova missão voltará a Marte, mas ele tem pouco mais que 300 dias de mantimentos e água para sobreviver. Depois disso, morrerá de fome ou sede – a não ser que use seus conhecimentos como engenheiro e botânico para plantar batatas no solo marciano e extrair água e oxigênio de combustível de foguete e tentar prolongar sua vida o máximo possível, até que a Terra saiba que está vivo e possa ser resgatado. Praticamente uma narrativa moderna de Robinson Crusoé.

 Marte e os seres da Terra

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Marte é um planeta que exerce grande fascínio sobre a civilização humana, há muitas décadas, desde as primeiras observações astronômicas de alguma relevância, ainda no século 19. Vem dessa época a ideia de que o planeta era habitado por alguma antiga civilização decadente, lutando pela falta água num mundo desértico. Essa visão foi popularizada com a descoberta pelo astrônomo italiano Schiaparelli de ‘canali’ em Marte. Com uma tradução errônea deste termo, que se referia a canais por principio naturais, para o inglês ‘canals’, que em tempos de construção dos canais do Panamá e Suez remetiam a canais artificiais, estava lançada a semente da civilização decadente de Marte (que por algumas teorias astronômicas então em vigor seria mais velho que a Terra, assim como Venus seria mais novo – razão por que algumas ficções antigas colocavam este mundo como um planeta pré-histórico). O americano Percival Lowell logo enxergou em Marte uma profusão de canais artificiais e sua visão logo se tornou dominante no imaginário popular até o século XX.

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O primeiro grande livro de ficção científica que inaugurou o subgênero ‘invasão espacial’ foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, em que o autor britânico fazia os terrestres sentirem na pele o que era ser colonizado por uma civilização mais avançada, numa crítica social invertida e forte ao colonialismo europeu na África. Mais tarde, o criador de Tarzan, Edgar Rice Burroughs inaugurou sua série sobre Barsoon, em que um terrestre era transplantado para lá e enfrentava os mais bizarros seres de uma civilização em conflito. Marte era um cenário de puro escapismo para Burroughs.

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Quanto menos se sabia sobre o verdadeiro Marte, mais ele servia de campo para a imaginação e uma espécie de metáfora da própria Terra, como nas poéticas visões de Ray Bradbury em Crônicas Marcianas. Nos anos 60, em Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Henlein, um marciano encarnava a contracultura. Lenda urbana dos anos seguintes à Segunda Guerra, os discos voadores tiveram como primeira ‘casa’ justamente o Planeta Vermelho. E no cinema, também nos 60, Robinson Crusoé em Marte misturava um pouco de tudo.

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À medida que as primeiras sondas espaciais americanas e soviéticas (e agora, europeias e até hindus) chegam ao quarto mundo, sabemos muito mais sobre Marte. Que bilhões de anos atrás comportou rios e oceanos (e não apenas correntes de água de no máximo 5 metros de largura como agora relevado) mas secou, devido a muitos fatores, entre os quais a baixa gravidade, que fez boa parte da atmosfera vazar para o espaço, diminuindo a pressão superficial.

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Mesmo assim, quase um mundo morto e possível de futura colonização, Marte ainda é o planeta que mais nos fascina no Sistema Solar, depois do nosso.