SELVA BRASIL

Todo mundo em algum momento  já deve ter imaginado como seria se, ao invés de um caminho, sua vida tivesse seguido outro, completamente diferente. Se você tivesse mudado de cidade, de profissão ou casado com outra pessoa, como sua vida teria se modificado? Apenas um exercício de imaginação? Talvez não, segundo a Teoria do Multiverso. Na física teórica moderna, a chamada Teoria M, de Edward Witten (lançada em 1995), reconhece que o Universo não pode ser explicado matematicamente se não for admitida a existência de outros Universos Paralelos ao nosso. Segundo essa tentativa de unificação da Relatividade de Einstein com a Física Quântica de Max Planck, infinitas versões de nós mesmos (e de nosso Universo) existiriam de forma paralela. Assim, aquela vida diferente que você um dia imaginou para si mesmo, talvez seja real numa outra realidade alternativa.

Especulações científicas à parte, não é de hoje que muitos escritores imaginaram como seria o mundo se a História tivesse acontecido de forma diferente. Na Europa e Estados Unidos, já existe há algum tempo um tipo de literatura (chamada de Ficção ou História Alternativa) que idealiza um mundo em que, por exemplo, o Império Romano não teria caído; os nazistas teriam vencido a II Guerra; ou ainda o Brasil perdido a Guerra do Paraguai.

Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo, recém lançado pela jovem e dinâmica Editora Draco, de São Paulo, traça o retrato de uma fictícia guerra na região amazônica, provocado pela invasão das Guianas Holandesa, Inglesa e Francesa pelo presidente Jânio Quadros em 1962. O resultado foi uma longa guerra (tal qual o conflito do Vietnã), quando uma coalizão das potências colonialistas com o apoio dos Estados Unidos, rechaça o ataque brasileiro e invade a Amazônia. Pura ficção? Sem dúvida. Mas poderia ter acontecido? Hoje é fato histórico conhecido que o ex-presidente tinha em seus planos megalomaníacos a invasão das Guianas. E se Janio não tivesse renunciado e levado seus planos às últimas consequências?

Novela de História Alternativa (veja abaixo), Selva Brasil se passa num fictício Brasil dessa realidade, no Amapá, Fronteira Norte, território em guerra há 20 anos. O próprio autor, transforma-se em personagem e, numa sacada metalinguística (e metaficcional) narra a história de seu batalhão em plena zona de conflito. Causo, o autor, que serviu o exército durante certo período, imagina como teria sido sua vida se o Brasil tivesse se envolvido mesmo nessa longa guerra. Tudo devidamente pesquisado no uso de jargões militares e armamentos do Exército Brasileiro (inclusive considerando que boa parte do material bélico nacional teria origem diferente, como tanques ou aviões de fabricação soviética, por exemplo).

Seria sem dúvida um país muito diferente, isolado como Cuba da comunidade internacional por americanos e europeus, mas com uma América Latina muito mais unida. Simultaneamente, a Argentina invadiu as Ilhas Malvinas, no Atlântico Sul, antecipando em décadas um velho plano de seus militares. À exemplo do que fizeram em nossa realidade (na guerra das Malvinas), os americanos aliaram-se aos europeus, patrocinando uma guerrilha na fronteira norte do país, enquanto o Brasil e seus parceiros latino-americanos lutam para reconquistar o território perdido. É um Brasil completamente diferente do nosso, contido política e economicamente por esse conflito perpétuo, e com gerações de jovens brasileiros comprometidas com o conflito.

Causo não se preocupa em elucidar o destino do responsável por toda essa guerra amazônica, o folclórico ex-presidente Jânio, nem em descrever como seriam as demais regiões desse país tão diferente do nosso. Ele não imaginou, porém, um país ditatorial, mas forçado a fazer alianças com os soviéticos para poder manter uma certa autonomia em relação aos inimigos do Primeiro Mundo, em aliança continental com os outros países sul-americanos. “Talvez um país mais sóbrio e amadurecido, por conta dessa conjuntura…”, concluiu o autor por e-mail.

A ação concentra-se sempre na selva brasileira, acompanhando um grupo de soldados que, ao seguir para um ponto anônimo do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa, onde devem substituir uma outra unidade do Exército Brasileiro, se depara com desertores e com um plano secreto para romper as regras de engajamento que limitam o conflito na região. Ao mesmo tempo, esses homens se deparam com um estranho experimento militar estrangeiro que, indo além de sua missão, pode ter aberto um portal entre essa realidade paralela e a nossa. Nesse ponto, entra em cena a ficção científica propriamente dita, da qual a História Alternativa pode ser considerada um subgênero literário.

Talvez o maior defeito de Selva Brasil seja o fato de ser curto – quando já se está totalmente envolvido pela narrativa, o livro acaba. Ainda segundo Causo, “ele tem o desenvolvimento que o formato permite – e uma virtude da novela (mais curta do que um romance de fato) é que não dá tempo de encher o saco”. Dificilmente Selva Brasil “encheria o saco” de quem gosta de uma leitura inteligente; seja ela uma aventura de guerra atípica, uma novela de ficção científica ou alegoria geopolítica e histórica.  Nesse caso, o livro pode ser considerado um sopro de originalidade na mesmice da literatura brasileira. Em se tratando de ficção científica, graças à consistência do tema e psicologia bem definida dos personagens, é um dos melhores e novo marco dentro do gênero História Alternativa.

HISTÓRIA ALTERNATIVA

História Alternativa é o subgênero da ficção científica que imagina o que aconteceria se a História como a conhecemos tivesse tomado um caminho diferente. Ele primeiro aparece no Brasil em 1989, com a novela de José J. Veiga, A Casca da Serpente, que trata de uma segunda comunidade fundada por Antonio Conselheiro, depois do Massacre de Canudos. Com o escritor carioca Gerson Lodi-Ribeiro, a noveleta “A Ética da Traição” (Isaac Asimov Magazine, 1993) temos aquela que é considerada um clássico da história alternativa nacional. Nesta, o Brasil perde a guerra para o Paraguai, que se torna uma potência mundial.

Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas, lançado ano passado pela mesma  Draco de Selva Brasil é outro exemplo nacional, imaginando a sobrevivência dos Impérios Astecas e Inca, que ao invés de destruídos pelos Conquistadores espanhóis, aliam-se aos portugueses de Vasco da Gama.

No plano internacional, temos sucessos recentes como Associação Judaica de Polícia (Companhia das Letras), do prêmio Pulitzer Michael Chabon, sobre o estado de Israel sendo criado, não na Palestina, mas no Alaska; na mesma toada, Complô Contra a América (Companhia das Letras), de Phillip Roth, mostra um EUA em que o herói aviador Charles Lindbergh, conhecido por suas simpatias pró-nazistas, torna-se presidente. Dos mais antigos, destaque para o clássico de Philip K. Dick (Blade Runner) O Homem do Castelo Alto (Aleph), de 1962, em que os EUA são derrotados por japoneses e alemães durante a Segunda Guerra.

Selva Brasil

Roberto de Sousa Causo

Gênero: História Alternativa

Páginas: 112

Preço: R$ 26,90

Editora Draco: www.editoradraco.com

Uma resposta para SELVA BRASIL

  1. […] (pelo menos em parte), como se deu em seu livro seguinte, Selva Brasil (editora Draco, 2010, aqui). Assim como neste, o protagonista, Ricardo Conte é uma espécie de alter ego do escritor (para […]

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