NO FANTASTICON 2010

A turma do Portal 2001, encabeçada pelo Nelson de Oliveira, à minha esquerda (foto: Cesar Silva)

Dias 27 a 29 de agosto aconteceu em São Paulo a IV edição do FantastiCon, misto de simpósio e convenção de Literatura Fantástica, com uma série de eventos acontecendo ao mesmo tempo e proporcionando oportunidade única para um encontro entre escritores, editores, fãs e simpatizantes do gênero. Não sei como foram as anteriores, mas de fato, nunca vi uma concentração tão grande de escritores, fãs e personagens egressos do The Big Bang Theory num mesmo espaço. A grande Biblioteca Temática Viriato Correa ficou pequena, em determinados momentos, para tantos em tão pouco espaço e tempo. Havia até uma livraria da MoonShadows lá, com garotas muito atenciosas se desdobrando em atender todo mundo. Comprei tudo que poderia trazer de volta sem maiores problemas físicos, mas não tanto quanto gostaria – sem contar os livros que ganhei também.

Mas como navegante de primeira viagem, morando a seis horas de viagem e tendo um Imprensa Oficial para fechar com data marcada, temia chegar em cima da hora para os eventos – para os quais era necessário retirar senha com uma hora de antecedência. Escaldado de outras viagens entrei em contato com o organizador, Silvio Alexandre, via Tiago de Castro, o qual me tranquilizou. De fato, mal aportei na Viriato Correa – já tendo perdido pelo menos duas palestras que queria assistir, o Alexandre me arranjou lugar na recém começada palestra sobre Mercado Editorial, mesmo sem senha. A primeira pessoa que me reconheceu logo que tomei lugar no auditório foi o escritor Roberto Causo, autor de Selva Brasil (veja resenha) e que havia encontrado no lançamento de Contos Imediatos, em 2009, por ele organizado e onde publiquei o conto FC “Pindorama” – o qual recebeu críticas muito boas (até mesmo do Antonio Luiz, da Carta Capital, considerado o mais severo dos críticos de Literatura Fantástica!…). Também encontrei o Ramiro Giroldo, autor do excelente ensaio publicado no livro.

O bate papo sobre Mercado Editorial no Brasil contou com Adriano Piazzi (Editora Aleph), Douglas Quinta Reis (Devir), Daniela Padilha (DCL – Difusão Cultural do Livro), Ednei Procópio (Giz Editorial), Richard Diegues (Tarja) e Erick Santos (Draco), que somente então vim a conhecer pessoalmente após vários contatos via net. Foi uma palestra elucidativa sobre as complexidades do publicar fantástico no Brasil.

Aproveitei o intervalo para investigar o espaço montado em plena FantastiCon pela MoonShadows. Calculando atentamente a relação peso-espaço-retorno a Catanduva, comecei minhas primeiras aquisições literárias – afinal, os preços estavam muito bons, com descontos que não veria tão cedo. Não pude resistir à capa do bojudo Vaporpunk, que comprei de imediato. Um primor de projeto gráfico, do Erick – e espero que o conteúdo esteja no mesmo nível. Também da Draco foi minha outra compra do dia, o volume 3 da Imaginários, praticamente um livro de bolso. Atendido pela atenciosa Michele, da MoonShadows, que se desculpou por não ter mais sacolas da livraria (parece que as vendas foram superiores ao esperado…), fiquei espantado com a quantidade de lançamentos de Literatura Fantástica atualmente. Havia praticamente de tudo, de livros de não ficção e coletâneas a romances, quadrinhos e mangás. Todos os gêneros da LitFan estavam presentes: ficção científica, terror, fantasia; livros de vampiros, anjos, zumbis, ciberpunks, clássicos e novidades. Haja bolso. E haja mochila…

O bate papo seguinte também foi excelente: O Fantástico e a Literatura Mainstream. Entenda-se por esta, aquela literatura considerada “séria”, em oposição a menos valorizada “de gênero”, como a policial ou de aventuras; a literatura “oficial”, que aparece nas resenhas dos grandes cadernos literários, recebe prêmios e é reconhecida pela academia. Em boa parte, aquela literatura que os jovens são obrigados a estudar nas escolas, geralmente enfocando temática social, seja urbana ou rural, ou dando mais prioridade à linguagem do que ao enredo.

Entre os debatedores, assisti à escritora Jeanette Rozsas, o poeta e jornalista Ademir Assunção, o escritor e psicólogo Felipe Pena, o publicitário e tradutor Luiz Roberto Guedes e Nelson de Oliveira, um exemplo de escritor do mainstream que transita fácil entre esta e a literatura fantástica. Defendendo, inclusive, que a literatura oficial precisa se renovar, buscando se antenar com a transformação social, política e econômica no mundo provocada pela ciência – a ficção científica é, por excelência, uma literatura de mudanças baseada na ciência. Nada mais atual.

E, finalmente, o evento que me envolvia – o Celebração Portal 2001, com a participação dos escritores participantes do quinto livro do Projeto Portal, idealizado e coordenado por Nelson de Oliveira – que às vezes também assumia a identidade literária de Luis Bras. Durante a troca de autógrafos entre os autores e leitores, eis que surge o Cesar Silva, lendário editor do fanzine Hiperespaço (junto com o José Carlos Neves). Foi nele que publiquei meus primeiros contos de FC, na pré-histórica era pré-internet. Conheci o Cesar, assim como o Causo, anos atrás, durante reuniões da AQC-SP (Associação dos Quadrinistas e Cartunistas de São Paulo) e da CLFC (Clube dos Leitores de Ficção Científica). Presenteei-o com um exemplar do Portal 2001, e ele me deu uma edição de Vinte Anos de Hiperespaço. Eis que me surgiu também o amigo Chico Pascoal, companheiro contista dos Contos Imediatos. Também conheci e autografei o exemplar do escritor Rober PInheiro, que aproveitei para que assinasse seu conto no meu exemplar do Imaginários. Também conheci, autografei e ganhei autógrafo de um dos meus ídolos literários – o escritor paraibano Braulio Tavares, autor de A Espinha Dorsal da Memória, entre outros. Também reencontrei o Brontops Baruq, que me presenteara com os números anteriores dos portais, Stalker e Fundação; conheci o Ricardo Delfin e reencontrei o sempre simpático escritor paranaense Mustafá Ali Kanso, outro egresso dos Contos Imediatos; e ganhei do Nelson de Oliveira um Paraíso Líquido, com direito a autógrafo.

Infelizmente perdi outros eventos do sábado, como as “Vozes femininas na literatura de vampiro” e a palestra do Braulio Tavares sobre a literatura fantástica e Guimarães Rosa. Cheguei na sexta, mas o tempo seco, sahariano, com a poluição baixa, me fizeram passar a noite em claro, e o sábado com uma intermitente dor de cabeça. Apesar do FantastiCon ter o dom de me afastar do meu estado lastimável durante o dia, tive de me render e voltar ao noir apartamento onde estava hospedado na região da República, (o qual me foi arranjado pelo amigo de longa data e jornalista da Federação dos Aposentados, Richard Casal). Retornei à estação da Vila Mariana do metro, na companhia do amigo Chico Pascoal (e bem que tentamos parar para um cafezinho no caminho – já que aparentemente ele é abstêmio…). De qualquer forma, ele voltou mais rápido para casa, enquanto eu tomava duas baldeações e passava por trocentas estações até o apê.

No domingo, apesar da opção inicial de ficar até a segunda, resolvi voltar para casa ao fim do FantástiCon naquela tarde. Por incrível que pareça, já estava sentindo falta do tempo seco de Catanduva, que pelo menos é poluído apenas pela queima de palha dos canaviais…

Após a viagem habitual pelo metrô da República até a Vila Mariana, assisti no FantastiCon a ótima palestra do escritor Gerson Lodi-Ribeiro, maior autor brasileiro de história alternativa – subgênero que conta histórias do tipo “o que aconteceria se tal fato, ao invés de acontecer assim, acontecesse assado”. Autor do clássico conto A Ética da Traição, em que o Paraguai ganha a guerra com o Brasil e do romance Xochiquetzal – Uma Princesa Azteca entre os Incas. A palestra aconteceu numa realidade alternativa vitoriana certamente (ou steampunk), uma vez que a moderna tecnologia do powerpoint falhou no momento H. E a palestra teve mesmo de ser no gagá. E foi tão boa quanto esperava. Inclusive pela revelação de que a Draco prepara uma nova coletânea Dieselpunk.

Na ocasião, fui presenteado por um exemplar do terror Anjo de Dor, do Roberto Causo. Ele me disse que a resenha de Selva Brasil (aqui publicado e, também, com algumas mudanças, no diário impresso O Regional) foi a melhor sobre o livro. Entendi o recado… Nova resenha bem cuidada a caminho, assim que ler este (e outros dez livros que estão na minha lista…). Eu sei, todo mundo critica essa minha mania de ler dez livros ao mesmo tempo, mas não consigo ficar num só. Aos poucos, leio todos.

O evento seguinte foi igualmente atraente. Uma mesa redonda (ou retangular, no caso) com grandes escritores de sucesso, tecendo considerações sobre multimeios, alternativas para a divulgação e publicação de literatura fantástica. Eduardo Spohr estava lá, contando suas aventuras em publicar o agora best seller sobre anjos A Batalha do Apocalipse, que conquistou lugar na lista dos dez mais da Veja e bateu os vampiros purpurinos da Meyer; Christopher Kastensmidt  é um fenômeno inverso: americano morando em Porto Alegre, faz sucesso lá fora escrevendo em inglês sobre um mundo de fantasia baseado… no Brasil colônia (que diabos, por que nenhum de nós teve essa idéia antes???); completando a mesa, Luiz Ehlers, editor da revista Fantástica e Tiago Castro, do site Universo Insônia.

Excelente e divertida a mesa redonda. Após a mesma, fiz mais alguns contatos e novas compras, entre os quais o primeiro número da revista Universo Fantástico, da Giz, e a coletânea Os Melhores Contos de Ficção Científica: Fronteiras, da Devir. Plenamente carregado, até onde os limites da minha mochila e pacotes permitiam, com relutância resolvi abandonar os últimos eventos e lançamentos do FantastiCon. Como queria chegar ainda na noite de domingo em casa, acabei partindo, dessa vez sem escala na República, rumo à estação Barra Funda. Onde ainda arranjei espaço para adquirir um exemplar de bolso de Devoradores de Mortos do Michael Crichton, na LaSelva. Dali, mais uma jornada de várias horas de viagem até Catanduva, a maior parte lendo minha fantástica bagagem.

Quase chegando a Pindorama (a cidade, não o conto…), uma visão dos tempos secos: queimadas de canaviais iluminando a noite. Deveriam ter terminado em 2010, mas foram postergadas para 2014. Uma visão do inferno para nós, mas o paraíso para os usineiros.

Antes do fim do Fantástico já estava em casa, fuligens da queima caindo como neve negra.

Uma resposta para NO FANTASTICON 2010

  1. […] # Sidemar de Castro [https://libernauta.wordpress.com/2010/09/05/no-fantasticon-2010] […]

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