LIVRO

O Alienado traz maturidade à

Literatura Fantástica brasileira

Primeiro livro solo de Cirilo S. Lemos alia literatura mainstream à cultura pop

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Se há um livro nascido no fandom brasileiro de literatura fantástica – e que, portanto, como a maioria, estaria ‘marcado’ para transitar apenas em um verdadeiro ‘gueto’ cultural – que poderia tranquilamente ser considerado um romance ‘mainstrean’, este é O Alienado, de Cirilo S. Lemos, publicado pela Editora Draco, de São Paulo.

Salvo exceções (raras) que conquistaram algum espaço na mídia graças ao sucesso de vendas, tais como Vianco, Spohr e Draccons afins, a Literatura Fantástica brasileira está relegada à rede de invisibilidade marginal da literatura – se é que a cultura oficial, mainstream, considera-a como literatura. Provavelmente, a vê apenas como leitura de entretenimento, escapismo ou subliteratura, a despeito de quantas obras de valor ou qualidade a literatura de gênero produziu no mundo.

O Alienado não é um livro de fácil leitura para todos, nem mesmo do fandom, mas quem gosta de um excelente texto, entremeado de referências que vão da literatura clássica ao cinema e aos quadrinhos, não irá se decepcionar.

Também não é fácil defini-lo enquanto gênero: por ele há ecos de ficção científica à la 1984, com direito a passagens kafkanianas e quase surreais, quadrinhos com sabor misto de banda desenhada e fanzine do século XX; por outro lado, o leitor, às vezes, parece estar vagando entre um indefinido futuro distópico ou o passado recente dos anos 80, num país fictício ou no regime militar brasileiro.

Em O Alienado, Cirilo tece uma trama em vários níveis de metalinguagem, e isso inclui sequências de histórias em quadrinhos entre capítulos, assinadas por um dos personagens, assim como trechos de um romance escrito por outro. Tudo isso funciona como parte de um todo, compondo um labirinto de fatos e emoções.

A começar pelo herói ou anti-herói, Cosmo Kant. Assim, com nome de filósofo, mas que me lembrou de imediato o de Clarke Kent – talvez seja coincidência, mas tem até o mesmo número de letras. E destacam-se até grandes ‘vilões’, os Metafilósofos, os Grandes Irmãos da Cidade-Centro, que vigiam seus cidadãos na autoritária e decadente metrópole, como num vislumbre de Brazil, o Filme.

Cosmo Kant aparece ainda criança, amigo de Virgílio, que lhe roubava livros e gibis (Superaventuras Marvel, da Abril, era um deles), e que, não por acaso, aparece como sendo o autor das páginas em quadrinhos que permeiam o livro (constando, inclusive, no expediente do livro) – muito embora o desenhista seja o próprio autor, Cirilo, e seus traços pareçam um misto de banda desenhada com o traço ainda ‘duro’ de algum fanzine do final do século XX. O que, aliás, torna tudo mais crível, considerando que o desenhista, nessa jogada de metalinguagem, seria o adolescente Virgílio. Se não foi a intenção, então o Cirilo escreve muito melhor do que desenha…

Cosmo Kant também surge como um operário casado, e se metendo em encrencas com os tais autoritários Metafilósofos, eventualmente sendo ajudado por um misterioso Forasteiro, enquanto tenta escapar das armadilhas do regime e buscar respostas para sua própria condição.

Não é um romance de estrutura linear, e ecoam nele tanto elementos reconhecíveis em quadrinhos da Vertigo, quanto de Borges, Saramago ou Huxley. De filmes como Laranja Mecânica a Matrix e A Origem, entre outros. Mas não é preciso em absoluto conhecer tudo isso para apreciar O Alienado.

Mas quem tiver essa bagagem, terá uma ainda melhor leitura.

SERVIÇO

O Alienado

Autor: Cirilo S. Lemos

 ISBN: 978-85-62942-49-5

 Gênero: Literatura Fantástica/Ficção Científica

 Formato: 14cm x 21cm

 Páginas: 240

 Preço de capa: R$44,90 (papel)

 R$ 19,90 (e-book)

http://editoradraco.com/2012/03/07/o-alienado-cirilo-s-lemos-2/

2 respostas para LIVRO

  1. Cesar Silva disse:

    Concordo com você, Sid. O alienado é um grande livro e Cirilo Lemos está entre os melhores autores de fc surgidos nesta geração. Mas vejo qualidades mais significativas neste romance do que o simples elencar de citações. Aliás, citações são de fato algo que não considero importante num texto e certamente não teria gostado do livro se o que ele tem fosse unicamente isso. A história de O alienado é poderosa e criativa, repleta de portas abertas para a interpretação do leitor, com vínculos firmes com a cultura, a história e até a geografia brasileira, uma narrativa que, por diversos motivos, se insere na tradição do fantástico latinoamericano e brasileiro, com um estilo moderno, seguro e ousado, que dialoga com o que autores importantes, como Luiz Bras por exemplo, estão realizando dentro da fc nacional. Isso tudo, com doses generosas de puros cyberpunk e New Weird, que raramente têm tratamento tão sofisticado por aqui. E não foi apenas um acerto ocasional, Lemos tem repetido o padrão em diversos outros textos publicados em antologias.
    Não é um livro único, contudo, há outros autores que trabalham e trabalharam com qualidade igual e até superior dentro da fc&f nacional. Mas o que O alienado vem demonstrar é que, sim, podemos acreditar que há um caminho bom e promissor para o gênero no país, que não precisa necessariamente passar pelo pastiche e pela apelação marqueteira para mostrar a que veio.

    • Sidemar disse:

      De fato, César. Também acho que o livro está além do universo de referências de que faz uso. Tanto que citei no final que, mesmo quem não reconhecer boa parte das citações, poderá apreciar o livro – a obra transcende e abre portas para novas interpretações.

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