Crônica marciana

AS ÁGUAS DE MARTE

Nasa anuncia descoberta de água corrente no Planeta Vermelho na semana de lançamento do filme Perdido em Marte. Coincidência?

Matt Damon portrays an astronaut who faces seemingly insurmountable odds as he tries to find a way to subsist on a hostile planet.

No começo desta semana (dia 28 de setembro), a Nasa (Agência Espacial Americana) marcou uma coletiva sobre o planeta Marte que provocou todo tipo de especulação: da descoberta de pirâmides ou alienígenas a vida microbiana no Planeta Vermelho, passando por outras menos fantásticas. A resposta da agência espacial foi mais prosaica, como se esperava, embora não menos sensacional: no planeta, menor que a Terra e mais distante do Sol, tinha sido descoberta, de maneira comprovada, água em estado corrente em sua superfície, em regiões altas, durante períodos do ano. Embora uma água tipo salmoura, altamente salinizada, a comprovação do fato abriu precedentes científicos fundamentais na possibilidade de descoberta de vida (microbiana), além de aumentar o suporte para uma futura viagem ao quarto planeta.

Mars Before

Na mesma semana, mais exatamente nesta quinta-feira (1º de outubro), aconteceu o lançamento nacional de Perdido em Marte (The Martian) filme de Ridley Scott (Gladiador, Blade Runner, Alien) baseado no livro best seller do engenheiro de softwares e agora, escritor de ficção científica Andy Weir. Ele lançou a história inicialmente em seu blog e em ebook na Amazon, e com o sucesso da narrativa fictícia sobre um astronauta de um futuro próximo que, depois de um acidente, é abandonado sozinho em Marte, lutando pela sobrevivência num mundo hostil com sua inteligência, ganhou contrato por uma grande editora. No Brasil, o livro é publicado pela Arqueiro.

Seja como for, a coincidência do lançamento (nos EUA o filme foi lançado na sexta, dia 2) levou muita gente a acreditar num marketing premeditado e benéfico para ambos – Hollywood e Nasa. É bastante provável, já que os cientistas da Nasa gostaram muito do livro e o filme poderia despertar uma atitude positiva do contribuinte americano (que é quem paga, no final das contas, o programa espacial) e validar uma verdadeira viagem à Marte no prazo proposto pelo filme, por volta 2030. Se os chineses, hindus, russos ou europeus não forem primeiro. Enquanto isso, o programa espacial brasileiro continua empacado e até o contrato com a Ucrânia foi cancelado, crise abaixo.

O filme

marte filme 1

Perdido em Marte, o filme, narra as desventuras de Mark Watney (Matt Damon, de Interestelar), que é deixado para trás no Planeta Vermelho depois de dado como morto, quando sua equipe precisa ir embora às pressas. Sem comunicação, somente daí a quatro anos uma nova missão voltará a Marte, mas ele tem pouco mais que 300 dias de mantimentos e água para sobreviver. Depois disso, morrerá de fome ou sede – a não ser que use seus conhecimentos como engenheiro e botânico para plantar batatas no solo marciano e extrair água e oxigênio de combustível de foguete e tentar prolongar sua vida o máximo possível, até que a Terra saiba que está vivo e possa ser resgatado. Praticamente uma narrativa moderna de Robinson Crusoé.

 Marte e os seres da Terra

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Marte é um planeta que exerce grande fascínio sobre a civilização humana, há muitas décadas, desde as primeiras observações astronômicas de alguma relevância, ainda no século 19. Vem dessa época a ideia de que o planeta era habitado por alguma antiga civilização decadente, lutando pela falta água num mundo desértico. Essa visão foi popularizada com a descoberta pelo astrônomo italiano Schiaparelli de ‘canali’ em Marte. Com uma tradução errônea deste termo, que se referia a canais por principio naturais, para o inglês ‘canals’, que em tempos de construção dos canais do Panamá e Suez remetiam a canais artificiais, estava lançada a semente da civilização decadente de Marte (que por algumas teorias astronômicas então em vigor seria mais velho que a Terra, assim como Venus seria mais novo – razão por que algumas ficções antigas colocavam este mundo como um planeta pré-histórico). O americano Percival Lowell logo enxergou em Marte uma profusão de canais artificiais e sua visão logo se tornou dominante no imaginário popular até o século XX.

mars wells

O primeiro grande livro de ficção científica que inaugurou o subgênero ‘invasão espacial’ foi A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, em que o autor britânico fazia os terrestres sentirem na pele o que era ser colonizado por uma civilização mais avançada, numa crítica social invertida e forte ao colonialismo europeu na África. Mais tarde, o criador de Tarzan, Edgar Rice Burroughs inaugurou sua série sobre Barsoon, em que um terrestre era transplantado para lá e enfrentava os mais bizarros seres de uma civilização em conflito. Marte era um cenário de puro escapismo para Burroughs.

mars barsoon

Quanto menos se sabia sobre o verdadeiro Marte, mais ele servia de campo para a imaginação e uma espécie de metáfora da própria Terra, como nas poéticas visões de Ray Bradbury em Crônicas Marcianas. Nos anos 60, em Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Henlein, um marciano encarnava a contracultura. Lenda urbana dos anos seguintes à Segunda Guerra, os discos voadores tiveram como primeira ‘casa’ justamente o Planeta Vermelho. E no cinema, também nos 60, Robinson Crusoé em Marte misturava um pouco de tudo.

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À medida que as primeiras sondas espaciais americanas e soviéticas (e agora, europeias e até hindus) chegam ao quarto mundo, sabemos muito mais sobre Marte. Que bilhões de anos atrás comportou rios e oceanos (e não apenas correntes de água de no máximo 5 metros de largura como agora relevado) mas secou, devido a muitos fatores, entre os quais a baixa gravidade, que fez boa parte da atmosfera vazar para o espaço, diminuindo a pressão superficial.

mars rover

Mesmo assim, quase um mundo morto e possível de futura colonização, Marte ainda é o planeta que mais nos fascina no Sistema Solar, depois do nosso.

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