É ASSIM QUE O MUNDO ACABA

14 de setembro de 2012

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Fazendo as malas para o Fantasticon 2012 em São Paulo, recebo a boa notícia de que mais um conto meu foi selecionado para uma nova coletânea, “É assim que o mundo acaba”. Curioso é que se trata de minha primeira participação numa editora não pertencente ao “fandon” da literatura fantástica, a Oitoemeio, do Rio de Janeiro.

Mais curioso ainda é que o conto “13.0.0.0.0.” havia sido recusado para outra coletânea, 2013 – Ano Um, da Ornitorrinco, outra pequena editora do fandon.  Como ele tinha prazo de validade, mandei em seguida para outra seletiva que surgiu, a de 2012 – O ano do fim, da Technoprinty e novamente foi recusado. Faz parte.

Mas nunca levei a sério esta conversa de fim do mundo dos maias, por isso o conto era completa e propositalmente de humor. Se fim do mundo pode ser humorístico. Bom, se as piadas do Rafael Bastos e do Danilo Gentili podem…

Enfim, enviei à Oitoemeia, afinal, não teria mais o que fazer dele depois do fim do ano. Sem contar que a editora pedia histórias mais para Melancolia, do Von Trier, do que para o 2012 do Emmerich.  

Segue abaixo o resultado da seleção de autores, conforme informado pela Oitoemeia.

 

“Após três meses e 98 contos recebidos, a Editora Oito e meio anuncia o resultado da seleção dos autores “É assim que o mundo acaba”. No lugar de 10, serão 11 autores que farão parte com os convidados. Abaixo, seguem os contos e seus autores.

 
1) 13.0.0.0.0. ou Gracias pela cerveja – Sidemar Castro
2) A fábula dos vermes – Igor Sternieri
3) Meu amigo, o buraco negro – Gustavo Melo

4) Em cima do telhado com um rifle – Bruno Goularte
5) O Fim do Mundo de Todos os Dias – Verônica da Silva Ferreira
6) Depois do que aconteceu – Alessandro Garcia
7) Castelos de salitre são mais bastardos que o Mesmo do elevador – Alliah
8) The end never sleeps – Márcio Menezes
9) Do lado de fora do umbigo do mundo, Leonardo Marona
10) Venus sobre a Terra, urubus sobre os homens, Igor Dias
11) Deja-vu, Luís Souza

A editora deseja parabenizar todos os autores que submeteram seus trabalhos. Não foi uma escolha fácil.
E, em dezembro, será o lançamento da coletânea “É assim que o mundo acaba”.

 

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CONVITE

16 de dezembro de 2011

Em São Paulo, neste sábado, participarei da tarde de autógrafos da antologia A Batalha dos Deuses, da Novo Século.


ANTOLOGIA

2 de novembro de 2011

A BATALHA DOS DEUSES

Primeira antologia da Novo Século será lançada dia 17 de dezembro

na Martins Fontes da Avenida Paulista

 

Fui convidado pelo escritor Juliano Sasseron (Crianças da Noite) a participar de uma antologia bem original, que eu saiba: a cada autor participante foi confiado um determinado panteão de deuses, já desaparecidos (dos quais só resta, praticamente, a mitologia) e seu conflito para manter a existência (ou a fé de seus crentes) diante do advento de um Deus Único, por exemplo, em suas várias formas. Acabei sugerindo o nome definitivo do livro, que de Panteão dos Deuses tornou-se A Batalha dos Deuses. Cada autor utilizou um panteão, seja nórdico, tupi, celta, romano, persa, maia, egípcio ou sumério, com seu gênero e estilo próprios (fantasia, horror, ficção científica ou histórica) para contar sua história, que também é a de um povo, de uma fé, ou um conflito entre povos e crenças.

“A humanidade criou os deuses à sua imagem e semelhança. Ou seria o contrário? Ao longo de milhares de anos, diversos panteões disputaram corações e mentes dos mortais, numa batalha que ainda não terminou, culminando no advento da ciência, para muitos, o novo deus único.

Mas qual seria o destino de tantos deuses e deusas quando seus crentes e adeptos perdem a fé neles? Desaparecem num limbo de deuses perdidos, perdem a imortalidade ou simplesmente somem, como se nunca tivessem existido?

Cristo, Maomé e Krishna confabulam entre si, observando homens que tentam se igualar aos deuses. Thor brande seu martelo nas tempestades, orientando os últimos vikings e valquírias em mundos perdidos na névoa. Os destinos do mundo são escritos pelos deuses maias nas páginas de um livro sagrado. A chegada do Deus Único expulsa os deuses antigos, celtas, romanos, egípcios e tupis, num confl­ito que prossegue até hoje e além.”

Abrindo a antologia, meu conto (ou devo dizer, noveleta) “Ragnarök”, revela aos últimos vikings e valquírias em jornada pelo Novo Mundo o destino dos deuses nórdicos. Mas não apenas estes: o conflito envolve também cristãos e celtas.

Simone O. Marques (Crônicas do Reino do Portal) mostra em “O Carvalho e o Visco” o embate entre o Deus Único que chega e os deuses celtas que partem para o Outro Mundo, numa Bretanha pós-romana e no alvorecer da Idade Média cristã.

Felipe Santos (O preço da Imortalidade) retoma suas raízes amazônicas em “Nhanderuvuçu”, onde Tupã e os deuses da floresta lutam na Arvore da Vida enquanto os “civilizados” se aproximam. Qual o destino do panteão tupi diante do catolicismo dominante?

O estreante Fernando Henrique de Oliveira conta em “Pontifex Maximus” o embate dos deuses e da fé que determinaram o destino do Império Romano. Ficção histórica que aborda um ponto crítico da história ocidental, quando o Imperador Constantino legalizou o cristianismo e dividiu Ocidente e Oriente.

O jornalista e pesquisador Sérgio Pereira Couto (Help – A Lenda de Um Beatlemaníaco) do alto de seus mais de 40 livros, divulga em “Popol Vuh” a herança do panteão maia. Quem seriam estes deuses pouco conhecidos, principalmente agora que se fala tanto sobre o calendário maia?

Albarus Andreos (A Fome de Íbus) conta como ainda vivem, amam e odeiam os deuses do Antigo Egipto em “A Menina que Olhava”. Um conto quase intimista, nos dias atuais.

Estevan Lutz, autor do romance cyberpunk O vôo de Ícaro, mostra outra realidade alternativa em “A Última Ceia de Mitra”, onde o cristianismo não se tornou a religião dominante.

Márson Alquati, escritor da trilogia Ethernity, narra em “O Legado Anunnaki” a origem dos deuses astronautas desde os antigos sumérios.

Fechando a antologia que organizou, Juliano Sasseron (Crianças da Noite) demonstra em “Consciência Quântica” que as unificações das religiões e das teorias físicas andam em paralelo.


19 de outubro de 2011

OS MUNDOS DE DIESELPUNK

 OU

DIESEL… É PUNK!

Antologia retrofuturista desenvolve múltiplas sociedades alternativas no passado, especulando a partir da tecnologia do motor a explosão

Uma vez completa a leitura das quase 400 páginas da segunda antologia da série “punk” da Editora Draco, “Dieselpunk – Arquivos confidenciais de uma bela época” (a primeira foi “Vaporpunk”, e a próxima será “Solarpunk”, em 2012) percebemos que as nove noveletas que a compõem formam um mix de temas tão diferentes entre si no estilo quanto na ideologia.

As sociedades alternativas que dominam o Brasil e o mundo nesse passado que não foi, mas talvez tenha sido, em algum lugar no Multiverso (segundo a Teoria M) – retratam um espectro político que vai da opressão de uma ditadura stalinista até uma sociedade com uma esquerda utópica e “politicamente correta”. Entre estas visões políticas polarizadas, temos histórias com sociedades mais convencionais do tipo dominante no gênero retrofuturista, particularmente o steampunk, como monarquias imperialistas, seja elas brasileira, portuguesa ou francesa; mas também há lugar para repúblicas com estágios diferentes de desenvolvimento ou corrupção, no Brasil ou algum lugar imaginário. As tecnologias do motor à explosão extrapolam em suas páginas de simples máquinas a diesel até robôs gigantes, locomotivas voadoras e homens-foguetes no melhor estilo Rocketeer, entre outras traquitanas e armamentos variados.

Essa talvez seja uma vantagem que o dieselpunk tenha sobre seu antecessor cronológico, o steampunk: quanto mais no “futuro”, ou mais próximo de nossa época, maiores e mais rápidas são as transformações científicas, políticas e sociais do mundo. Enquanto a percepção dos anos 60 a 90 do século XIX são até certo ponto bem semelhantes entre si, as mesmas décadas no XX possuem características mais marcantes, tanto sociais e políticas quanto tecnológicas. As mudanças em uma sociedade, que antes demandavam meio século ou mais para acontecer, agora não levam mais de uma década, poucos anos até. Para nós, contemporâneos do século XXI, cada década recentemente passada tem seu estilo, moda, ideologia, cultura; “anos dourados”, “anos rebeldes”, cada década tem sua própria identidade.

Já foi dito que a ficção científica só se tornou possível como literatura (e outras mídias) por que passamos a viver em um mundo em que era possível ver e sentir as transformações acontecendo no decurso de uma vida e assim especular sobre as futuras mudanças provocadas pelo desenvolvimento das ciências, economia e política nos costumes e seu impacto na humanidade: processos industriais, bens de consumo, legislação social, direitos civis, revolução sexual, emancipação das mulheres e minorias étnicas entre outros.

Assim, enquanto o steampunk é geralmente focado numa sociedade vitoriana, imperialista, ainda na primeira fase da Revolução Industrial (mesmo que com extrapolações fictícias), seu derivado imediato, o dieselpunk, tem uma maior flexibilidade política, variação ideológica e de costumes. Isso se revela nitidamente na leitura das duas antologias, a “Vaporpunk” e a atual. E deverá ser ainda mais, suponho, na próxima da série, “Solarpunk”.

As técnicas e o estilo utilizados pelos autores para contar suas histórias também variam muito. As referências vão desde a literatura pulp até a mainstream, dos quadrinhos ao cinema. Os protagonistas são tanto herois movidos por idealismo quanto por propósitos pouco nobres.

Um ponto a destacar nesta antologia (assim como na anterior) é o excelente projeto gráfico desenvolvido pelo editor Erick Sama, da Draco. Um cuidado que vai desde a escolha das fontes até as ilustrações da capa, diagramação interna e tratamento das fotos, tudo no melhor estilo art decô, evocando a Belle Epoque. E não, a fonte do título não é inspirada na arte de Bioshock, como algum apressado poderia pensar – apenas, ambas as artes beberam na mesma fonte óbvia: o estilo visual que definiu uma época. Uma bela época, mas que abriu caminho para extremos de violência, ideologia e sacrifícios.

AS NOVELETAS

“Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi,

A antologia abre com uma aventura no melhor estilo pulp de herois mascarados combatendo a opressão com artefatos tecnológicos. O que chama a atenção na noveleta é a ambientação: a aventura se passa num Brasil dominado por uma ditadura stalinista, sob forte influência soviética (talvez um regime nascido de uma bem sucedida Intentona – ou Revolução Comunista). Fora o background político, a trama segue os cânones do gênero, com o heroi mascarado surgindo nos momentos decisivos e aplicando sua própria justiça, feito um Sombra, Besouro Verde ou Spider (o “Aranha”, heroi esquecido que teria influenciado na criação de Batman) nascidos nas páginas das revistas de “ficção de polpa” ou nas antigas radionovelas. O personagem e o universo criado por Carlos Orsi são fortemente característicos, e espero que novas aventuras do Escorpião Azul possam ser contadas. Afinal, ele deixou uma guerra de libertação em aberto.

“Grande G”, de Tibor Moricz.

Destoando do caráter luso-brasileiro das demais noveletas (mas que o organizador não proibiu enfaticamente, embora declarada a preferência lusobrasileira), a história se passa em dois ambientes distintos e anglófonos: Steam City (Cidade do Vapor) e Smoke City (Cidade da Fumaça), ambas rivais e, claro, representações dos subgêneros steampunk e dieselpunk. Mas o nome ideal não deveria ser Oil City, ao invés de Smoke City?… Afinal, vapor também faz fumaça… aliás, muita fumaça! Mas nomes à parte, a noveleta foi desenvolvida no característico tom de fábula de FC do autor (como em “Cibermetarrealidade”, na antologia Contos Imediatos, da editora Terracota, ou no romance “O Peregrino”, da Draco), sem poupar generosas doses de sexo, sadismo e incesto, entre otras cositas más. Tibor exibe sem pudores e com um humor bem negro a luta pelo poder entre os herdeiros do Grande G do título, magnata que governa com mão de ferro Smoke City. Parece uma narrativa bem apropriada para uma HQ retrofuturista da revista Heavy Metal (Metal Hurlant para os franceses) e ficaria bem no traço de um Moebius ou Kaza. Ou talvez de um Manara, mais afeito ao erotismo. Se nessa antologia retrô foi assim, imagino como Tibor irá se superar na “Erotica Phantastica”, que Gerson Lodi-Ribeiro organiza até o fim do ano…

“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado”, de Octavio Aragão.

Título arretado e história idem. Imagine um confronto entre a Coluna Prestes, o lendário grupo de revolucionários tenentistas dos anos 20 e as tropas do capitão Virgulino Ferreira, o igualmente célebre Lampião – fato que quase aconteceu – mas incrementado com armamento de ponta futurista. Com perfeita recriação de época, ambientação e credibilidade na trama, a noveleta tem um desfecho clássico e surpreendente (e fico por aqui para evitar spoilers), para quem conhece o trabalho do autor na série de viajantes do tempo brasileira, Intempol. Por falar nela, Octavio Aragão está às voltas novamente com sua cria, com uma nova versão em quadrinhos prestes a ser lançada pelo novo selo de HQs da Draco: “Para Tudo Se Acabar na Quarta-feira”, com desenhos de Manoel Ricardo.

“Impávido colosso”, de Hugo Vera

Esta é a mais steam, na forma, das histórias desta antologia dieselpunk. O Império do Brasil, em pleno século XX, aliado ao Paraguai, está em plena guerra com a Argentina (armada pelos ingleses), o que torna muito fácil para que lado torcer. Principalmente por que uma das heroinas é certa Clarice Riquelme, uma voluptuosa, sensual e esperta espiã paraguaia. Claro que o fato da personagem ter sido inspirada numa celebridade momentânea da última copa (Larissa Riquelme), pode tornar a referência datada. Mas isso não importa tanto. Abundam na literatura personagens fictícios inspirados em figuras hoje esquecidas. Afinal, o que importará mais adiante não é o que a musa inspiradora foi, mas sim o uso que um escritor fez dela, o que de certa forma a imortaliza. Por outro lado, como vi posts do autor junto a algumas panicats (para quem não está acostumado com uma programação de alto nível cultural, aquelas garotas de poucas roupas e muitos atributos do programa Pânico, da Rede TV), imagino que já terá inspiração para futuros personagens em seus próximos trabalhos…

Mas voltando à história, o Império do Brasil (governado por Dom Pedro III) é invadido por hostes de mecanóides argentinos, robôs a óleo que nada pode deter. Exceto um robô gigante, verdadeiro “mecha”, pilotado por um descendente do Barão de Mauá e desenvolvido por ninguém menos que o próprio Rudolf Diesel, o inventor já velhinho da tecnologia que leva seu nome. Cuidem-se, hermanos…

“Pais da aviação”, de Gerson Lodi-Ribeiro.

Mais uma noveleta de história alternativa clássica em sua forma (quando um ponto de divergência diferencia o desenvolvimento histórico conhecido por nós), do que um conto puramente dieselpunk. Nesse mundo, ao contrário do nosso, Napoleão Bonaparte arriscou no uso pioneiro da navegação a vapor, oferecida pelo americano Fulton (em nossa realidade ele recusou), o que garantiu sua vitória sobre os britânicos em Trafalgar. Nesse caso, a invasão napoleônica das monarquias ibéricas não levou à independência da América Latina, mas à sua incorporação ao Império francês, a Hegemonia, Brasil incluso.

Tudo começa com os irmãos Wright (os inventores americanos do avião) oferecendo seu aeroplano aos franceses, só para descobrir que certo le Petit Santos já dotou o Império com seus próprios mais pesados que o ar, os quais dispensam uma catapulta de lançamento, ao contrário do veículo ianque. Uma doce vingança literária contra a primazia aeronáutica americana, sempre decantada na ficção científica deles, tal como aquela irritante abertura de “Star Trek: Enterprise”, em que ao navio a vapor sucede o avião dos irmãos Wright…

A história nos leva a seguir para um combate, este já em época diesel, digamos assim, entre batalhões compostos por brasileiros (membros do Império Francês) contra revoltosos peruanos, com direito a bombardeios e gases mortais. Assim como outras histórias de Gerson (em que outros Brasis convivem com uma República Palmarina e uma Nova Holanda), este universo da Hegemonia Européia possui uma riqueza própria que espero ver novamente.

“Ao perdedor, as baratas”, de Antonio Luiz M. C. Costa

A noveleta do colunista de política internacional da revista Carta Capital desenvolve-se num Brasil republicano, com forte presença indígena, e onde personagens da história e da literatura cruzam destinos. Pertencente ao mesmo universo dos “Outros 500”, do conto “A Flor do Estrume”, incluído na coletânea “Steampunk” da Tarja Editorial, a trama se passa cerca de 70 anos depois. O protagonista é um agente secreto de um grande império capitalista do Norte (uma Holanda Americana, que aparentemente toma o lugar dos Estados Unidos – lembremo-nos de que Nova York nasceu como Nova Amsterdam) e tenta interferir nas eleições brasileiras. Personagens reais como Francisco de Lima e Silva contracenam com fictícios de Oswald de Andrade e Ariano Suassuna, assim como… a barata gigante de Kafka. Ou pelo menos, uma versão FC dela.

“Ao perdedor, as baratas” é uma história com fundo político socialista, com a ameaça do “imperialismo capitalista” representado pelo vilão batavo, Robbert, o protagonista da história. Ideologicamente, digamos que a noveleta de Antonio Luiz está para a revista Carta Capital, como “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, estaria para a Veja… O que, no mínimo, demonstra o caráter bem democrático de “Dieselpunk”.

“Auto do extermínio”, de Cirilo Lemos

Literariamente uma das mais bem escritas histórias da antologia, “Auto do extermínio” se passa no contexto das lutas ideológicas entre comunistas e integralistas do Brasil dos anos 20, de um Império que sobrevive com um caquético Dom Pedro III (outro!), na iminência de um golpe de estado. E como na minha história, também tem um Vargas primeiro-ministro, mas bem diferente. Personagens bem interessantes e construídos, como Joana, uma agente secreto tentando salvar o Império, Jerônimo Trovão, um matador de aluguel assombrado pela presença de uma Santa conselheira que só ele enxerga – enquanto seu filho, Nômio, tem a companhia de um heroi igualmente invisível de revista pulp, o Democrata (nenhuma alusão política recente, que eu saiba…). Em meio a tudo isso, articula-se um golpe, com apoio americano. Outros elementos fantásticos que compõem a noveleta são um clone do imperador, um robô cilindróide e um fuzileiro ciborg, compondo um quadro quase weird.

“Cobra de fogo”, de Sid Castro

Minha própria noveleta. Como é um tanto imparcial falar do próprio trabalho, emprestei palavras de outras duas resenhas, comentando-as. Claro que isso tornou esse bloco desproporcionalmente maior que os outros…

A primeiro foi feita pelo Antonio Luiz M. C. Costa em sua coluna, aqui. [A história] “põe em jogo um D. Pedro III pela terceira vez nesta coletânea e Getúlio Vargas retorna como primeiro-ministro, mas de resto é bem original. Talvez seja a noveleta mais divertida da coletânea. Com certeza é a mais hábil no uso inteligente e criativo de clichês.” [Usei e abusei de situações clichês da literatura pulp, das HQs e do cinema. Quanto a Dom Pedro III (de novo!), imaginei outro nome a princípio, mas por motivos vários que cabem aqui, aceitei a sugestão de nosso organizador [juro que não sabia que os outros imperadores tinham o mesmo nome…], que certamente se divertiu maquiavelicamente em ter versões bem distintas do mesmo monarca em três noveletas diferentes…]

“Nesta versão do século XX, houve uma Guerra Mundial de 1919 a 1929 que acabou com uma troca de bombas atômicas. Depois disso, uma Liga das Nações impôs uma “Pax Atomica” na qual os conflitos internacionais serão decididos de maneira supostamente esportiva, com corridas pelos quatro cantos do mundo entre locomotivas voadoras do tamanho de destróieres”. [Confesso que foi muito divertido (e trabalhoso!) criar os nomes das supermáquinas para cada potência, como a Charlemagne para a França, a General Lee americana, a Yamato japonesa, a Potemkin russa etc…]

“Trata-se de uma Corrida Mundial pela Amazônia. Alemanha, Áustria-Hungria (governada por Hitler), União Soviética (liderada por Trotsky), Japão, China, Estados Confederados (o sul venceu a Guerra Civil), Reino Unido [na verdade, República Britânica], França, Holanda e outros países pretendem disputá-la e o Brasil e seus vizinhos querem conservá-la. O clichê hollywoodiano da “Corrida Maluca” cheia de truques sujos, popular de “A Corrida do Século” de Blake Edwards ao “Speed Racer” dos irmãos Wachowski, é levado aqui a um extremo insuperável e isso é só o começo da diversão, especialmente para os cinéfilos.” [Speed Racer foi uma das principais fontes para a noveleta, sem dúvida. Mas o anime japonês, não aquele filme estranho dos irmãos Wachowski…]

“A corrida parte de Casablanca, com direito a uma noite no Rico’s Café ouvindo “As Time Goes By”. Citações e alusões a filmes famosos pipocam de surpresa a cada página, de “Stalker” de Tarkovsky ao “Apocalypse Now” de Coppola, com batalhas entre Dragões (voadores) da Independência, samurais e caubóis. [“Stalker”, o filme, mas principalmente o livro, dos russos Arkadi e Boris Strugatsky, homenageados em dois personagens.]

“A trama, por rocambolesca que seja, faz sentido e os personagens ficcionais e históricos se misturam muito bem, todos com vida e personalidade. Vale notar a participação de Olga Benário e Erwin Rommel pela Alemanha, Charles Lindbergh e Jesse James III pelos Confederados, Antoine Saint-Éxupery e Charles de Gaulle pela França e Amon Göth, o vilão de “A Lista de Schindler” pela Áustria-Hungria, além dos protagonistas brasileiros. [Com dor no coração cortei muitos outros personagens…]

“É a noveleta mais cinematográfica em todos os sentidos, a mais digna de virar uma superprodução hollywoodiana.”

Uau! Mas receio que jamais verei esse filme… Porém, uma versão em quadrinhos é mais factível. Foi a sugestão do escritor Romeu Martins em seu blog “Cidade Phantastica” aqui , autor do conto de mesmo nome publicado em “Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário”, da editora Tarja. Aliás, revelei a ele uma curiosidade. Quase todos os personagens tem nomes referentes de uma maneira ou outra, como o mitológico Dâmocles, os Vultani (tirado do vilão do antigo seriado “O Homem Foguete”) e com consoantes dobradas, como nas HQs da Era Clássica. Já o mecânico JD (João Diesel), confessadamente inspirado no Sparky do Speed Racer, não conseguia um nome que me agradasse. Até que lembrei do antológico João Fumaça de Cidade Phantástica… e voilá.   Segundo ele: “A penúltima noveleta é a terceira a contar com um D. Pedro III em todo o livro, dando conta de como histórias sobre impérios brasileiros alternativos fazem mesmo parte do imaginário de nossos escritores. “Cobra de Fogo”, do editor gráfico de São Paulo [Catanduva] Sid Castro, é a história mais empolgante e divertida do livro e a que melhor emprega as possibilidades do gênero quando se pensa no básico do dieselpunk: enormes veículos movidos a óleo diesel em um mundo vagamente semelhante ao do início do século XX. O autor oferece exatamente isso, uma corrida maluca entre gigantescas locomotivas que correm fora de trilhos, por terra, céu e mar, se preciso for. Na disputa, que ocorre em torno do globo, a posse territorial da Amazônia.

Sid Castro criou uma história que é bastante leve, mas sem descuidar em nenhum momento na motivação dos personagens e na dos países e impérios que eles representam. Por trás de cada um dos pilotos incríveis e de suas máquinas extraordinárias – às vezes até mesmo na ambientação e nos intertítulos engraçadinhos –, um festival de referências, quase sempre cinematográficas, aguarda os leitores. Vamos unir agora dois fatos. Primeiro: na lista de antigas atividades do autor publicada ao final do livro estão incluídas as de ex-chargista [resolvi resgatar atividade nesta matéria e espero que os autores não se sintam ofendidos…] e de ex-quadrinista (ele produziu roteiros e desenhos para revistas nacionais como Calafrio e Mestres do Terror); e segundo: a Draco vai estrear brevemente um selo dedicado às HQs com um álbum do citado Octavio Aragão e sua Intempol. Fica aqui uma sugestão, pois seria ótimo ver as locomotivas M’Boitatá, do Império do Brazil, General Lee, do Estados Confederados da América, Potenkim, da União Soviética, Yamato, do Japão, e todas as outras em uma graphic novel com o selo do dragão na capa. [Ha-ham!… Erick?… ]

“Só a morte te resgata”, de Jorge Candeias

Fechando com classe, a única contribuição portuguesa nesta antologia (“Vaporpunk” teve três) parece ter tido seu texto convertido ao “português brasileiro”, muito embora seja possível sentir o sabor lusitano da narrativa. Li essa noveleta logo após a releitura de “Unidade em chamas”, do livro acima citado, já que ambas são do mesmo universo, em épocas distintas. Puxando a “sardinha” para seu país, Jorge Candeias imaginou um Portugal que retornou aos tempos de superpotência, graças ao desenvolvimento da “Passarola”, dirigível de guerra criado pela tecnologia steamer do brasileiro padre Gusmão. No primeiro conto, o protagonista era um jovem aeronauta português, às voltas com um multiétnico império luso; desta feita, em “Só a morte te resgata”, a narrativa centra-se em um brasileiro sulista, Jeferson, traidor da Confederação Lusitana (da qual o Brasil faz parte), lutando pelas potências européias do norte, devido a seu caráter racista. As passarolas foram substituídas por albatrozes, sua versão diesel, em combates aéreos nos desertos africanos. Abatido, Jeferson inicia um longo percurso de volta à sua casa e seu destino incerto.

Ambas as noveletas poderiam ser excertos de uma novela maior, tantos são os detalhes cuidadosos na criação do ambiente e a rica psicologia dos personagens, o que se faz em certo detrimento da ação, mas com um bom equilíbrio entre as partes. O resultado final é um universo bastante crível e consistente, que certamente dará origem a novas histórias, ou talvez mesmo um romance.


13 MOMENTOS DO FANTASTICON 2011

22 de agosto de 2011

Finalmente, após uma semana de recuperação e volta à realidade, após participar do V Fantásticon, em São Paulo, encontro condições (e tempo) de escrever algo sobre o evento.
Primeiro, fazendo juz ao nome do Simpósio (e que é muito mais do que isso) de Literatura Fantástica, uma passagem (quase) mística da viagem – O Fantásticon aconteceu de 12 a 14 de agosto, sendo que o livro que participo, Dieselpunk, foi lançado no dia dos vampiros, 13, sábado (não, Dieselpunk nada tem a ver com vampiros – veja aqui). Ao comprar passagem, me foi oferecida a poltrona 13, que aceitei sem pestanejar, afinal gabo-me de ser agnóstico e racional. Disse isso ao meu amigo mototaxista Miguel, que me levou até a estação rodoviária, acrescentando que o apartamento em que ficaria seria de número 13, por coincidência. De imediato, Miguel, o único ateu-místico que conheço, revelou que seu número como mototaxista era… 13. Não creio em coincidências, mas que elas existem, existem…

Sete horas depois já estava devidamente instalado no apartamento (aliás, digno de um cenário retrofuturista, com direito àqueles elevadores abertos e gradeados que só se veem em antigos filmes policiais noir…) que me foi cedido na região da República por um amigo jornalista, assessor de imprensa de um sindicato, enquanto aguardava sábado chegar. Perdi a abertura novelística e mutante da sexta-feira por conta do cansaço da viagem e sono atrasado.
Dia 13, após o longo mas rápido trajeto através do metrô República – Sé – Vila Mariana, cheguei à Sena Madureira, até a Biblioteca Temática Viriato Correa, em que já estive duas vezes – no Fantasticon 2010 e durante o lançamento do Portal Fahrenheit. Após o reconhecimento inicial daquele recanto cada vez mais familiar, a primeira pessoa conhecida que encontro, como geralmente acontece, é o escritor Roberto de Sousa Causo (Selva Brasil aqui, Anjo de dor aqui). Ele me apresentou a Vagner e Vitor Vargas, pai e filho – um, ilustrador fantástico das capas da Devir e outro escritor de ‘Isidora encontra o herói acorrentado’, de quem ganhei uma pequena prévia autografada por ambos. Causo também me apresentaria, um pouco mais tarde, a Gumercindo Rocha Dorea, o lendário editor da chamada Geração GRD. Outro amigo que sempre está presente e chegou em seguida é o Chico Paschoal, companheiro que conheci nos Contos Imediatos, alíás, organizado pelo próprio Causo pela Terracota, em 2009.

Enquanto ainda eram desencaixados os livros da livraria Moonshadows, novamente montada nas dependências do Fantasticon, logo dei de cara com Reino das Névoas, primeiro livro solo de Camila Fernandes, ilustrado pela própria, e publicado pela Tarja. Um pouco mais tarde, conheci pessoalmente a pequena notável, após muitos anos de amizade virtual, já que a conheço desde os tempos em que ambos fazíamos parte da SLEV, um grupo de escritores on line que compartilhava um universo próprio de ficção científica, pelo qual passaram muitos bons autores Obviamente, ganhei uma dedicatória em meu exemplar.

Outro velho amigo que sempre reencontro é o Cesar Silva, em cujo fanzine Hiperespaço publiquei meus primeiros contos de FC. Com ele, encontrei também Marcelo Simão Branco, ambos autores do formidável Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Lastimavelmente, não sobrou um exemplar para comprar na ocasião, o que terei de fazer mais adiante. Até por que, minha mochila logo estaria recheada de livros comprados e ganhos. Entre os ganhos, um exemplar do pequeno mas saboroso Muitas Peles, de Luis Braz, alter ego de Nelson de Oliveira, cuja palestra com o acadêmico Manoel Costa Pinto, do programa Entrelinhas e revista Cult assisti. Realizaram um debate sobre as fronteiras entre a literatura mainstream e a litfan, uma região em que Nelson navega com conhecimento e habilidade.

Dessa vez tive menos tempo para as palestras e batepapos, devido aos inumeros encontros com colegas conhecidos, recém conhecidos e desconhecidos, lançamentos e outras atrações que o Fantasticon provia a todo instante, graças ao empreendedorismo literário do Silvio Alexandre. Destaque para a palestra sobre palavras mágicas, da escritora Rosana Rios e a do escritor Gerson Lodi-Ribeiro, que com sua explanação sobre ‘Sexo e alienígenas’, elevou a imaginação de todos, especialmente dos escritores que pretendem participar de sua futura antologia pela Draco, Erotica Phantastica.

Mas a minha expectativa principal neste Fantasticon foi ter em mãos o aguardado Dieselpunk – Arquivos Confidenciais de Uma Bela Época, antologia editada pela Draco, que tive notícia pela primeira vez justamente numa palestra do Gerson no simpósio do ano passado. Entre dezenas de emails trocados com o organizador desde então, creio ter captado os inescrutáveis desígnios do mesmo para me capacitar a ter uma noveleta aprovada na antologia, o que aconteceu com ‘Cobra de fogo’ aqui.

Logrei por fim conhecer ao vivo o responsável pela antologia da era do motor a explosão, Gerson Lodi-Ribeiro. E foi com extraordinária emoção e volúpia que amealhei meu gordo e bonito exemplar entregue pelo honorável Erick Sama, o publisher da editora do dragão. Não sem aproveitar a chance para uma tietagem explícita, ao requisitar que autografasse meu exemplar do Imaginários 4, que tinha um conto seu. Munido do precioso segundo livro da trilogia punk (o próximo deverá ser Solarpunk, ano que vem), travei conhecimento e captei os devidos autógrafos (para valorizar meu exemplar, certamente) de Tibor Moricz (que tem mesmo nome de escritor de ficção científica, diga-se de passagem…), do Carlos Orsi, do Hugo Vera (aliás, a quem dei meu primeiro autógrafo no mesmo livro) e do Antonio Luiz Costa (que achou graça nos ‘desígnios’ e revelou que teve a sua cota com suas ‘partículas’, em seu próprio conto).

Sabado foi mesmo o dia dos primeiros encontros reais: conheci igualmente ao vivo e abraços, a jovem escritora Bruna Caroline (Insanas… Elas Matam), que me presenteou com um exemplar de Moedas para o barqueiro II, da Andross, que além do conto dela, tinha até mesmo um da minha ex-namorada Kelly (Lizzie Loren) – mundo pequeno. Ela me apresentou o sr. Adorável Noite, Adriano Siqueira, responsável pela bela exposição do mundo dos vampiros, que apresentava até mesmo exemplares de Calafrio, a revista em quadrinhos onde aprendi a escrever muito e rapidamente, editada por Rodolfo Zalla. Por coincidência, no mesmo momento, mas em outro local de Sampa, estava sendo lançada a edição 53 da revista, revivida e, que ao que me consta contém pelo menos dois trabalhos meus, assinados como Sidemar e Sidney Silva (um dos pseudônimos da época, em que escrevia um sem número de roteiros de terror góticos para a publicação).

Também conheci a bela e simpática Amanda Reznor, graciosamente steamer; aliás, o pessoal steampunk arrasou com o clima e idumentárias neovitorianas; o José Roberto Vieira (Baronato de Shoah); Felipe Santos (O preço da imortalidade); reencontrei Giulia Moon (Kaori); a escritora Márcia Olivieri, companheira de Portal; e o jornalista e escritor José Rocha, que assumiu seu lado fotógrafo e fez a melhor cobertura do evento em fotos. Também conheci M.D. Amado, o Estronho & Esquésito, e a historiadora e publisher (da Llyr) Ana Cristina Rodrigues, e a talentosa e bonita Cris Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), de cujo homérico tombo entre as cadeiras de uma palestra fui testemunha… Não, ela nada sofreu, exceto o constrangimento momentaneo que, maldosamente, torno público…


Outro que encontrei nos dois dias em que estive presente no Fantasticon foi o Juliano Sasseron, companheiro de Território V (Terracota, 2009), que estava lançando nova edição de sua primeira obra, Crianças da Noite. Conversamos bastante sobre o futuro lançamento, para este ano, da antologia de que será responsável pela Novo Século, Batalha dos deuses, onde cada autor responde pelo confronto sobrenatural de uma mitologia específica. O livro deve ser lançado em outubro ou novembro, e minha noveleta será Ragnarök, envolvendo principalmente mitos nórdicos, mas também algo dos celtas.

Consegui adquirir, finalmente, os três primeiros volumes de Ficção de Polpa, nestas alturas, a mais longeva coleção de literatura fantástica do país, editado por Samir Machado, pela Não Editora, do Rio Grande do Sul. Por falar em Porto Alegre, justamente ao adquirir na Moonshadows meu exemplar do pequeno Duplo Heróico 2, da Devir, encontrei o escritor americano Christopher Kastenzmidt, radicado na capital gaúcha e autor da premiada Bandeira do Elefante e da Arara, indicada ao Nébula e ganhador do Realms of Fantasy. Com ele e Tibor Moricz papeamos sobre história do Brasil e elementos fantásticos.

Finalmente, assisti no domingo o batepapo sobre literatura brasileira de entretenimento com os autores best sellers André Vianco (Turno da Noite), Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse) e Raphael Draccon (Dragões do Éter), mediados pelo escritor Luis Eduardo Matta (O Véu). Lamentavelmente, não pude ficar para assistir à conferência 3d, transmitida desde a Inglaterra (um evento digno de um encotro scifi), e peguei o metro de volta para a estação Barra Funda, caso contrário, só chegaria em Catanduva com o dia raiando.


DIESELPUNK

20 de julho de 2011

Arquivos Confidenciais de uma Béla Época

Primeira antologia de noveletas dieselpunk do mundo, livro da Editora Draco será lançado durante o V Fantasticon

Desde que as antologias de retrofuturismo Steampunk (Tarja) e Vaporpunk (Draco) foram lançadas, fiquei interessado em escrever algo nesse subgênero da FC. A oportunidade apareceu durante o IV Fantasticon, em 2010, quando o organizador da Vaporpunk, Gerson Lodi-Ribeiro, anunciou outra antologia temática, desta vez numa inédita Dieselpunk, focada nos motores a explosão, que seria o sucessor cronológico da Era do Vapor. Como já estava escrevendo o meu próprio conto Steampunk, o inédito “Os Quatro Ases”, que seguia a linha de um Brasil Império alternativo, apenas adiantei a cronologia para criar uma nova história no mesmo universo.

Após alguns contatos com o organizador, lancei as bases de como seria minha história, que foi sofrendo mudanças de nome e personagens até sua forma definitiva, submetendo-a, como os demais escritores, aos desígnios inescrutáveis de Gerson Lodi-Ribeiro. Passada essa fase angustiante, foram liberados os nomes dos selecionados para a antologia, com nove noveletas ao todo:

Antonio Luiz Costa aparece com “Ao perdedor, as baratas”, que tem toda cara de utilizar elementos de Machado de Assis, como seu conto “A flor do estrume”, publicado no volume Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário. Crítico dos mais temidos da literatura fantástica, Antonio Luiz Costa está se tornando vidraça com os lançamentos destes e outros livros pela Draco: “Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos” e o volumoso “Crônicas de Atlântida”.

Cirilo Lemos comparece com “Auto do extermínio”. Desse autor conheço apenas um texto, “Corre, João, corre”, publicado em Imaginários 3, mas vale por muitos. Um dos melhores contos de terror nacionais que já li.

Octavio Aragão , mais conhecido como o criador do universo brasileiro dos viajantes do tempo, Intempol, escreveu “O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o chuço excomungado”. Também escreveu o romance “A Mão que Cria”, com temática de ficção alternativa.

Carlos Orsi Martinho escreveu “A fúria do escorpião azul”. O autor é outro veterano da geração que iniciou com a versão brasileira da revista Isaac Asimov Magazine. “Guerra Justa” e “Nômade” foram seus últimos trabalhos.

Tibor Moricz mandou para a seleção “Grande G”, e ao que tudo indica, também poderia estar na próxima Erotica Phantastica (veja abaixo); autor prolixo, já lançou entre outros, “Fome”, pela Tarja, e “O Peregrino”, pela Draco. É o organizador da antologia “Brinquedos Mortais”, ainda inédita, da qual também farei parte.

Hugo Vera, organizador de outra antologia da Draco, Space Opera, juntamente com Larissa Caruso, foi escolhido com “Impávido colosso”.

Gerson Lodi-Ribeiro, o organizador, também está presente na antologia com “País da aviação”. Também organizou Vaporpunk e, ao parece, não vai parar por aí. Vem ai a antologia Erotica Phantastica (cujo nome é autoexplicativo) e, comenta-se, a próxima na linha “punk”, Solarpunk, seja lá isso o que for.

Jorge Candeias, autor português que também participou de Vaporpunk, escreveu “Só a morte te resgata”, aparentemente uma continuação de “Unidade em chamas”, da antologia steam anterior.

Como ainda não li nenhum desses trabalhos, deixei a minha noveleta, “Cobra de fogo”, por último. Segue uma apresentação mais completa, enviada à editora.

“Cobra de fogo” , de Sid Castro – Após a Era do Vapor, a Belle Epoque foi apenas um breve interregno que antecedeu a nova época dos motores a explosão, dos foguetes e da indústria pesada. As disputas econômicas e coloniais por fontes de matérias primas e mercados levaram ao acirramento dos conflitos entre as nações.

A Guerra Que Acabou Com Todas as Guerras terminou de forma trágica, com explosões atômicas e a imolação de milhões de vítimas. Uma Trégua do Terror dominou o mundo, e do medo emergiu a Liga das Nações, que estabeleceu a Pax Atomica e intermediou um novo tipo de disputa ideológica e tecnológica entre as nações, a Guerra Fria. Não um mundo polarizado por apenas duas superpotências, mas várias. Para evitar um final apocalíptico da civilização, os destinos desse mundo alternativo moldado pela paranóia nuclear e movido por poderosas máquinas a combustão passaram a ser decididos em complexos Jogos Mecânicos regidos pela Liga das Nações. Era 1940, e uma nova Corrida Mundial se anunciava, dessa vez pela divisão dos recursos amazônicos.

A veloz locomotiva voadora M’Boitatá, a “Cobra de Fogo”, é a última esperança do Brasil de proteger seus recursos da sanha colonialista das superpotências. Sua tripulação de maquinistas e agentes imperiais corre contra o tempo e veículos rivais poderosos e experientes como a General Lee, Siegfried, Charlemagne, Yamato e Potenkin, entre outras máquinas lendárias. Partindo da Cidade Livre de Casablanca, atravessam o Sahara até o Egito e Jerusalém; correm pelos domínios imperiais nipônicos e chineses e das estepes russas até o Reich Alemão; e do Reino de França voam aos Estados Confederados da América, enfrentando os perigos de Cidades Proibidas carcomidas pela radiação, mortais esquadrões de homens-foguetes e intrigas políticas.

Acompanhe a corrida mortal da M’Boitatá, a “Cobra de Fogo”, pela integridade do Império do Brasil.

Confessadamente, trata-se de uma noveleta de ficção alternativa com estrutura totalmente “pulp”, algo quadrinesca. Ou até de mangá, já que entre suas muitas influências está o japonês Speed Racer (o anime, não o filme). Parte de seus personagens teve até os nomes, e outras referências, captadas de antigos filmes e seriados, que vão de O Homem Foguete a Casablanca, passando por Stalker. Algumas personalidades históricas do nosso mundo alternativo estão presentes naquele, num outro contexto.


A CIDADE CONHECIA AS TREVAS

19 de março de 2011

Anjo de Dor, de Roberto Causo (Selva Brasil) abre coleção

de terror da Devir, Pentagrama

Como literatura de gênero, o terror tem uma história bem diferenciada no Brasil. Se em algumas artes, como cinema, ele praticamente se resume ao cult e internacionalmente conhecido Zé do Caixão, nos quadrinhos a história é outra. Beneficiado pela censura editorial do gênero nos Estados Unidos, durante os anos 50/60, os autores nacionais encontraram um nicho de mercado, através de inúmeras revistas de pequenas editoras. Com a crise atual das HQs, esse espaço desapareceu, e praticamente toda produção nacional se afunilou (em todos os gêneros, salvo exceções) nas pequenas tiragens de romances gráficos para livrarias.

Na literatura, entretanto, nunca tivemos senão obras esporádicas e de pouca projeção dentro do gênero. Apenas recentemente, impulsionado pelo “bum” da literatura fantástica (ai incluídas a ficção científica e a fantasia) o terror, como literatura de gênero, tomou novo fôlego. Nesse caso, temos até um autor “best seller”, André Vianco, a partir do livro Os Sete, sobre vampiros coloniais portugueses nos dias atuais. Escritores como Kizzy Ysatis, Giulia Moon, Martha Argel e Nazareth Fonseca, entre outros, desenvolveram contribuições particulares. Mas fora do tema vampiro, pouca coisa tem aparecido.

Nesse sentido, talvez o selo Pentagrama, lançado pela Devir, de São Paulo, possa oferecer novidades além do mundo pop dos sugadores de pescoços.

Anjo de Dor, de Roberto Causo, foi seu primeiro lançamento (2009).

ANJO DE DOR

Mais conhecido como autor de FC hard, essa não é a primeira incursão de Roberto Causo pelo gênero terror. Em A Dança das Sombras (Caminho Ficção Científica, 1999, Portugal), seu primeiro livro de contos, alguns “O Bêbado de Pancada” (encontro com o anjo da morte), “Os Fantasmas da Serra” (horror cósmico), “Trem de Consequências” (encontro com o diabo) e “Parada 93” (uma história de fantasmas), entre outros esporádicos publicados aqui e ali.

O mais recente talvez seja “Um toque do real: óleo sobre tela”, publicado em Imaginários 1, que está mais para a fantasia, mas que tem algum ponto de contato com Anjo de Dor. Nesta, pode-se reconhecer claramento o estilo do autor, a começar pelo lado autobiográfico (pelo menos em parte), como se deu em seu livro seguinte, Selva Brasil (editora Draco, 2010, aqui). Assim como neste, o protagonista, Ricardo Conte é uma espécie de alter ego do escritor (para quem o conhece, isso fica evidente, para começar, pelo nome com iniciais e número igual de caracteres). Tanto, que me foi difícil visualizar o protagonista com outro rosto senão o do próprio autor; isto, para quem o conhece, para os demais leitores tal solução não interfere na leitura. Além disso, o personagem também vive em Sumaré, cidade interiorana de Causo.

Se por um lado, isso facilita na verossimilhança da ambientação da história no tempo e no espaço (praticamente lembranças e referências do autor nos anos 90), de outro torna o começo do romance um tanto lento, para quem não tem familiaridade com a cidade. Essa parte do livro parece sintonizada com o mainstream literário (literalmente, a corrente “principal” da literatura, algo assim como sua parte “séria”, adjetivo que os cadernos culturais normalmente não associam à de gênero). Inclusive um típico linguajar coloquial “caipira” é reproduzido.

Aos poucos, no entanto, vão surgindo pequenos fragmentos de fantástico ou insólito, algo ainda muito mais ligado ao misticismo e religiosidade comuns à maioria dos brasileiros, mas que não tem, aparentemente, uma ligação direta com a trama.

A personagem principal do romance, entretanto, entra em cena logo: Sheila Fernandes, uma cantora de barzinhos, de passado tão dúbio quanto obscuro, meio que entrando em decadência, mas ainda talentosa. Ela vem para trabalhar na Flicks, a casa noturna em que o abstêmio Ricardo é barman. Logo se estabelece um clima de atração – repulsão entre ambos, que será o foco dramático da história.

Dessa relação vem o título do livro, Anjo de Dor – em que um espectro feito à imagem e semelhança da cantora, que atormenta as noites do barman tanto quanto lhe seduz se torna o “élan” sobrenatural da história.

Não fica bem definida a natureza desse anjo (ou demônio), podendo ser desde uma forma de ectoplasma emulada pelo subconsciente de Ricardo ou Sheila, ou ambos, quanto um avantesma ou súcubo, como às vezes parece, exteriorizando todo o passado forte da moça; em todo caso, ele toma forma a partir da arte do barman, num quadro, o que nos leva, novamente, ao conto do Causo acima mencionado, do primeiro Imaginários, “Um toque do real: óleo sobre tela”.

Mas enfim, o passado bate à porta, por conta de uma ilustração feita pelo mesmo Ricardo para um anúncio sobre a cantora, publicada em jornal de outra cidade. A história toma contornos de ação e violência com a chegada do vilão, Ferreirinha (confesso que achei o nome pouco assustador… – talvez por que evoque algum nome de comediante popular ou dupla sertaneja) e seus asseclas.

A partir daí a história vai entrando num crescendo de ação e violência, que culmina com a seqüência em um moinho (o Moinho Velho, lugar ao que tudo indica, real em Sumaré) perfeito cenário para um clímax temático digno de uma boa história de terror.

Talvez o trabalho de Roberto Causo com personagens mais bem trabalhados psicológica e fisicamente – principalmente Sheila, com suas nuances de ódio e amor, prazer e dor, beleza e medo – transfigurados na figura do Anjo de Dor.

O projeto gráfico do livro, muito bem feito, como geralmente é a maioria das edições da Devir, destaca-se pela bela capa pintada, da autoria de Vagner Vargas.

Ao contrário da Pulsar, selo de ficção científica da Devir, organizado pelo mesmo Causo, que já conta com dezenas de títulos, a coleção Pentagrama está no começo e, segundo próprio autor, com pelo menos um título novo sendo preparado para publicação – o romance “The Jewell of the Seven Stars” (1912), de Bram Stoker, o criador de Drácula. A edição contará com as duas versões de final, com que o romance foi publicado. É um dos livros que inspiraram o ciclo de histórias de múmia no cinema. Ainda segundo Causo, a editora estuda propostas de antologias de contos para o selo.

Outro selo temático da editora, Quymera, sobre fantasia, também já teve publicado seu primeiro volume, a coletânea Rumo à Fantasia.

Anjo de Dor

Autor: Roberto de Sousa Causo

Páginas: 210 PB em papel off-set 90 g/m²

Arte da capa: Vagner Vargas